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2009/11/22

"A SOMBRA DO QUE FOMOS"


O encontro com o passado é o mais exigente de todos os exercícios. Porque o passado, digerido, amaciado, burilado e comprimido pelos cilindros da memória daqueles a quem deixou marcas dolorosas, é sempre uma sombra, um pálido reflexo do presente que já foi.
“A sombra do que fomos” de Luís Sepúlveda é um desses exercícios.
O encontro de quatro antigos companheiros, “golpeados” em 1973 pela acção militar de Pinochet, para uma última operação “revolucionária” é o mote para o reencontro com um passado interrompido no momento em que este se mobilizava para um outro futuro.

2009/11/18

HUMANAS PERPLEXIDADES

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana , os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem." (Sartre)


Se Saramago não tivesse sido económico na escolha do título para o seu último romance “Caim”, poderia ter adoptado “Humanas Perplexidades”. Este seria o título que eu encontraria para o texto, se ele me tivesse sido dado a ler sem baptismo prévio.Acompanho a escrita de Saramago há muitos anos, ainda antes do tal Nobel. Poucos foram os livros que não li e alguns mereceram a minha reincidência, caso de “Levantado do Chão”. Por isso, “Caim” era-me previsível, antevia já o seu conteúdo, Deus e a sua relação com a humanidade são presenças frequentes nas estórias criadas.

O que se escreveu e afirmou sobre o livro e o seu tema, confirmava-me a expectativa.
Li-o agora.

Dei o tempo por bem empregue. Magistralmente escrito, é talvez um dos mais límpidos e directos textos que li do autor. O permanente diálogo e a sucessão de estórias dentro da estória resultam numa narrativa fluida e fácil.Importa, para se conseguir ler este texto e aproveitá-lo nos seus detalhes, possuir cultura bíblica. Um conhecimento prévio das “estórias” bíblicas dos primeiros livros ajuda a situar a narrativa.

Caim, julgado e condenado por Deus, transforma-se, ao longo da estória, no juiz dos actos de Deus. Caim é, neste particular, uma personagem anacrónica. Possui, por assim dizer, um quadro de valores humanista, questionando Deus pelas arbitrariedades que este comete, algo que mais nenhuma personagem bíblica faz. Caim poderia ser um manifestante antiguerra, que questiona a morte de inocentes no bombardeamento moderno de uma cidade como punição dos seus governantes. Fá-lo a Deus, o Senhor da Guerra, que dizima Jericó e elimina Sodoma e Gomorra. Que dá indicações precisas de como dividir os saques resultantes, contabilizando a sua parte.

Mas este anacronismo de Caim encerra outra afirmação. Aquele é o Deus daquele tempo, da infância do Homem, pouco complexo, caprichoso e cruel. Tão cruel e guerreiro como Josué. Mas como poderia o Deus de Josué não ser guerreiro e saqueador, se ele o era. Como poderia o Deus de Moisés não ser libertador e vingativo se Moisés queria libertar o seu povo e vingar o seu opressor.

Como poderia Deus ser, em cada tempo, diferente daqueles que nele se projectavam?Deus é uma ideia histórica e evolui historicamente ao lado do seu criador, sendo por isso capaz do melhor e do pior, tal e qual qualquer homem...

2008/08/07

ALEXANDRE SOLJENITSIN




'O CDS-PP anunciou ontem que irá promover um colóquio, em Outubro, para «recordar o papel histórico» do escritor russo Alexandre Soljenitsin, que morreu domingo passado, em Moscovo, com 89 anos'.

O CDS já não é propriamente um partido, mas também não é uma agremiação literária. Deste modo, a sua evocação do escritor será feita pela relevância política do autor e não tanto pelos seus atributos literários.

Não sei o que acha o Marquês sobre este escritor, seja na perspectiva literária, seja na perspectiva política, mas por desafio de um comentador, deixarei aqui a minha opinião, construída sobretudo nas várias leituras feitas sobre o acontecimento.

Alexandre Soljenitsin era um escritor tipicamente russo, na forma, no estilo e conteúdo. De acordo com os críticos literários, a sua escrita transportou para o Século XX a tradição russa do século XIX. Desse ponto de vista, o seu reconhecimento internacional, pela atribuição do Nobel em 1970, ter-se-á revestido, do reconhecimento do papel e da importância da literatura russa no contexto cultural moderno, não sendo despiciendo o significado político da personagem no contexto político da guerra fria.

Do ponto de vista político, Alexandre Soljenitsin estaria longe de ser um democrata como ocidentalmente entendemos o conceito. A sua crítica, mais do que justa ao Estalinismo, era uma crítica conservadora, do ponto de vista político. Aliás, em escritos, artigos e entrevistas, como muito bem lembra Carlos Brito, revelava a sua admiração por Franco e por Pinochet. Já após o desmembramento da União Soviética, Alexandre Soljenitsin ocupou o seu lugar na nova ordem russa, passando a merecer a crítica daqueles que o acusavam de conivência com o endurecimento do regime russo, sobretudo na era Putin, político por quem nutria admiração, sobre a reivindicações autonomistas de várias nações ainda governadas por Moscovo!

A sua morte retira-o do fundo do baú, onde de algum modo foi colocado, quando a relevância política do seu trabalho deixou de existir. As referências a Alexandre Soljenitsin, são sobretudo críticas repisadas ao Estalinismo, ao Comunismo, à União Soviética, à esquerda, a tudo o que soar a possibilidade de alternativa ao capitalismo. Veja-se a iniciativa do CDS, que talvez verse sobre tudo, menos sobre a literatura e leia-se o texto de José Manuel Fernandes no Público de ontem!
Mas se o objectivo é fazer, in extremis, a crítica às teses e teorias anticapitalistas, a escolha também não é a mais acertada, porque Alexandre Soljenitsin era um anticapitalista conservador. A sua concepção política torna-o antes um fiel depositário da tradição e cultura russas do século XVIII, XIX e XX. Da Grande Rússia “Imperial” e centralista, onde os movimentos independentistas são encarados como amputações ilegítimas e o liberalismo económico e político é visto como um perigo para os valores e as tradições.

É neste contexto que encaro a personagem, sem grande paixão ou controvérsia, antes com serenidade. Nada do que escreveu ou disse é grande argumento para o debate sobre as perspectivas de futuro da humanidade, ainda que seja para esse campo que muitas das análises e “sentidas” homenagens o queiram transportar.

A crítica democrática e progressista ao neoliberalismo é cada vez mais urgente, custe isso muito ou pouco a Paulo Portas e outros.

2008/08/03

OU ISTO, OU O LIVRO DA MADDIE


Se já não encontrar o livro "A verdade da mentira", de Gonçalo Amaral, em nenhuma grande superfície, quiosque, livraria, merceeiria, farmácia de serviço, local onde se encontra sempre tudo, e mesmo assim quiser ler qualquer coisa no Verão, pode sempre optar pela colecção que o DN está a oferecer, até ao início de Setembro. Recomenda-se ao Presidente da Câmara de Loures a leitura do livro oferecido dia 18 de Agosto.

Fiódor Dostoiévski, Coração Débil, 26 - Jul
Franz Kafka, A Metamorfose, 27 - Jul
Giovanni Boccaccio, Histórias Eróticas, 28 - Jul
Anton Tchekov, A Minha Mulher, 30 - Jul
Voltaire, O Ingénuo, 01 - Ago
Lev Tolstoi, A Morte de Ivan Ilitch, 02 - Ago
Jack Londo, A Peste Escarlate, 03 - Ago
Maximo Gorki, Três Contos, 04 - Ago
Thomas Hardy, O Pregador Atormentado, 06 - Ago
Franz Kafka, Carta ao Pai, 08 - Ago
Fiódor Dostoiévski, A Voz Subterrânea, 09 - Ago
Joseph Conrad, Juventude, 10 - Ago
H.P. Lovecraft, Herbert West: Reanimador, 11 - Ago
Robert L. Stevenson, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, 13 - Ago
Charles Dickens, Um Cântico de Natal, 15 - Ago
Henry David Thoreau, Onde Vivi e para Que Vivi, 16 - Ago
Henry James, A Fera na Selva, 17 - Ago
Miguel de Cervantes, A Ciganita, 18 - Ago
Rainer Maria Rilke, Histórias do Bom Deus, 20 - Ago
Nikolai Gógol, O Retrato, 22 - Ago
Sun Tzu, A Arte da Guerra, 23 - Ago
Stephen Crane, O Barco Aberto, 24 - Ago
Oscar Wilde, O Crime de Lorde Artur Savile, 25 - Ago
Thomas Wolfe, O Rapaz Perdido, 27 - Ago
Gustave Flaubert, Um Coração Simples, 29 - Ago
Edgar Allan Poe, A Queda da Casa de Usher, 30 - Ago
Fiódor Dostoiévski, Contos, 31 - Ago
Italo Svevo, Um Embuste Perfeito, 01 - Set
Oscar Wilde, O Retrato do Sr. W.H., 03 - Set
Rainer Maria Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta, 05 - Set

2008/07/06

PORQUÊ LER GEORGE ORWELL?




A ler no "Público" de hoje, um texto de Maria Filomena Mónica que considera a publicação do livro de George Orwell "Por que Escrevo e Outros Ensaios" pela Antígona, o grande acontecimento do ano.

"Nunca tanto quanto nestes dias, em que assistimos à ressurreição do nacionalismo primário a propósito de um campeonato de futebol, sinto como oportuna a leitura de O Leão e o Unicórnio, o ensaio integrado numa antologia de textos de Orwell, excelentemente traduzidos por Desidério Murcho, agora publicados pela Antígona (Por que Escrevo e Outros Ensaios). Trata-se de uma selecção feita a partir da colecção de ensaios que, em 2002, John Carey preparou para a Everyman's Library. É pena que o leitor português não tenha acesso à totalidade, mas não serei eu que me queixarei. Pelo contrário, gostaria de dar parabéns à editora pela divulgação de um escritor que os portugueses conhecem sobretudo através de obras menores, como Mil Novecentos e Oitenta e Quatro ou A Quinta dos Animais. Este pequeno livro é o grande acontecimento do ano." in, Público, 06 de Julho de 2008

2008/05/12

UM AMOR COR-DE-ROSA


Imagem retirada daqui.

Foi recentemente inaugurada na Galeria de Pintura D. Luís I, no Palácio Nacional da Ajuda, a exposição “José Saramago A consistência dos sonhos”, com a presença do escritor.
Ao contrário do que muitos supõem, não se trata de uma justa homenagem do Estado ao único Prémio Nobel de Literatura português. Alguém que tem dado um fantástico contributo para a divulgação da nossa língua, literatura e cultura.
A concepção e montagem desta exposição foram integralmente suportadas pelo Estado espanhol e pela privada Fundación César Manrique sedeada nas Canárias.
Os mais atentos recordam-se certamente que aquando da inauguração deste mesmo evento em Lanzarote onde o escritor reside, o Governo português primou pela ausência. A então ministra da cultura Isabel Pires de Lima alegou para o efeito motivos de agenda, que até hoje permanecem obscuros…
O escritor ainda que, mais uma vez, despeitado pelo poder político português empenhou-se na vinda da exposição a Lisboa que “considera a sua cidade e a quem quis oferecer esta prenda”.
No dia da inauguração acotovelavam-se à entrada personalidades de todo tipo, até do tipo que nunca leu um livro de Saramago. Todos querem ficar bem na fotografia…
Eis que chega o primeiro-ministro que atravessa com dificuldade a pequena multidão acompanhado por nada mais, nada menos, do que 5 ministros…
O Governo espanhol, em contraste com o seu homólogo português aquando da inauguração em Lanzarote, fez-se representar pelo respectivo ministro da Cultura que foi portador de uma carta pessoal do primeiro-ministro Zapatero para José Saramago.
Chegado o momento dos discursos surgem os esperados, rasgados e circunstanciais elogios ao escritor, à sua obra, aos serviços prestados à Pátria e à língua portuguesa.
Sócrates tomado por um súbito e anteriormente insuspeitado entusiasmo chega mesmo a afirmar com ardor e convicção que “queremos que saiba que em Portugal gostamos muito de si José Saramago”.
O escritor, no seu mais que telegráfico, elucidativo e irónico discurso agradeceu a presença de todos com um “obrigado, ou melhor e mais à portuguesa, obrigadinho”…
Para bom entendedor uma palavra basta.
Aproveite a oportunidade e visite esta fantástica exposição de permite conhecer as múltiplas facetas da vida obra do mais prestigiado escritor português da actualidade.
A exposição conta com uma forte componente multimédia, recorrendo ao uso de suportes digitais e audiovisuais, e exibe um conjunto de documentos inéditos do espólio de Saramago.
Todos os dias, excepto à quarta-feira, das 10h às 19h. até 27 de Julho
Consulte informações sobre marcações de visitas guiadas.
Leia sinopse da exposição AQUI.

2008/04/26

POETAS DE ABRIL A MAIO (1)




Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
"Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade"



Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinqüenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raíz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerra de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 1974
Imagem retirada daqui.

2008/04/22

QUANDO A VIRGEM RECOMENDOU AO POVO DA AMARELEJA QUE COMPRASSE UMA MOTOCICLETA AO SEU VIDENTE


Há qualquer coisa de indomável no Alentejo. Essa é a conclusão que pode tirar da leitura do conjunto de pequenas crónicas compiladas no livro “Terra Vermelha”. Ao contrário do que pode sugerir o título, o vermelho é relatado ainda antes da existência do PCP. Algumas das histórias remontam ao início do século XX. O retrato de insubmissão é feito como se ela fosse uma característica endémica, um traço cultural perene e não conjuntural. As crónicas, escritas sem pretensiosismos estilísticos, são de fácil digestão literária. Sempre com um sorriso, o leitor é impelido a acelerar o ritmo de leitura na ânsia de passar à história seguinte. Na proximidade das comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio, se para mais não houver tempo, recomenda-se a leitura destas pouco mais de 100 páginas, uma boa formar de celebrar a criatividade, coragem e esperança, que sempre existe nas comunidades humanas e, que no Alentejo, sempre assumiu contornos assinaláveis. De comunas falhadas, passando por extraterrestres, terminando numa virgem milagreira bastante preocupada com o bem-estar do seu vidente, as narrativas são um supermercado de prodígios, bizarrias, utopias e excentricidades.
Terra Vermelha— Crença e Insubmissão no Alentejo do Século XX, foi escrito por Paulo Barriga, tem prefácio de Francisco Camacho e é editado pela Guerra & Paz

2008/03/21

GANCHO





fotografia: R.C.


O senhor António Gancho viveu toda a vida numa porta giratória, girava e via apenas aquilo que se cruzava com ímpeto na sua mente. O senhor António Gancho não brincou com a vida, mas sim na vida, lançou os dados nas suas alucinações, as regras não existiam, só delírios poéticos. O senhor António Gancho era poeta e vivia numa casa de loucos, vulgar e ironicamente chamada de saúde. A porta girou tantas vezes que agora era a casa do telhal que estava dentro do senhor António Gancho. O mundo inteiro vivia dentro dele e deixou de ter uma forma esférica para adoptar a humana. Um novo continente, gancho em forma de mão. Poema com a palavra António. António Gancho. Poeta. Louco. Eternamente na porta giratória.

2008/03/19

MINOTAURO DERROTA TESEU




imagem: melencholia.blogspot.com

Intrinsecamente todo o Homem é mau. Com uma espada na mão todos matam, com uma vacina na outra poucos salvam. O homem é corruptível porque sofre de cupidez e ambiciona sempre o trono da fortuna.
Com muita frequência falamos de corrupção e acusamos sem provas os nomes que todos avançam, mas seremos nós impolutos para julgarmos? Nem sempre as notas quer nos oferecem subtilmente forram convenientemente os nossos telhados de vidro. Somos todos corruptíveis.
A propósito deste assunto, recomendo o último livro que li, “O homem que corrompeu Hadleyburg” (ed. Assírio & Alvim) de Mark Twain. O autor americano disserta sobre corrupção, avareza e ambição, e como osmose destes três traços, a loucura que destrói a essência humana quando tudo muda e a pessoa deixa de contar cêntimos para acumular milhões.
Assim aconteceu em Hadleyburg, considerada a incorruptível e símbolo máximo da virtude.
Em Creta o Rei Minos pediu a Dédalo a construção de um labirinto para conter o Minotauro. Porém, após a morte de Androceu – filho de Minos – às mãos dos atenienses, o Rei declarou guerra a Atenas e como vingança possível, proclamou o sacrifício de catorze adolescentes atenienses, sete rapazes e sete raparigas. Este sacrifício servia unicamente para alimentar o ódio de Minos e não para vingar o filho. Obviamente os catorze jovens acabavam devorados pelo Minotauro.
Todavia, no livro de Mark Twain não existe um Teseu que derrota o homem-touro e todos os cidadãos são devorados pela ganância e pela ambição dos dólares, o dinheiro é o Minotauro de Hadleyburg e o Rei Minos o forasteiro que procura vingar-se de tão ínclita povoação. Os dezanove ilustres de Hadleyburg são corrompidos pelo brilho do ouro, humilhados e finalmente tomados pela loucura, morrem na vergonha de terem cobiçado e mentido para atingirem a fortuna.
Na célebre rubrica de Lauro António vi um filme – A Visita (1964) – de Bernhard Wicki com Anthony Quinn e Ingrid Bergman. A talentosa actriz deseja vingar-se de Quinn, tudo porque este trocou-a na juventude. A visita mortífera oferece em troca da morte de Quinn dinheiro, automóveis, electrodomésticos e jóias, despoletando uma irónica e desesperada caça ao homem. Anthony Quinn procura salvar-se com palavras e amizade, mas vizinhos e amigos já estavam corrompidos pelos bens materiais.
No fim de contas, todas as histórias têm Minotauros, Reis Minos, Dédalos e Ícaros, mas poucas contam com o auxílio de Teseus.
Somos corruptíveis e somos humanos.

2008/03/16

O HOMEM DAS LINHAS TORTAS





foto: R.C.


‘X’ marks the spot, diziam piratas e espiões. ‘M’ incriminava o assassino no filme de Murnau – M, Matou – e desvendava-o perante uma sociedade atemorizada. ‘X’ juntava-se a repórter e tínhamos o Repórter X, como criou Reinaldo Ferreira o seu pseudónimo literário e jornalístico.

Aventureiro e criativo, Repórter X inventou entrevistas (Conan Doyle e Mata Hari), fingiu-se correspondente na Rússia, embora nunca tenha carimbado o seu passaporte com o símbolo dos Sovietes. Num estilo Orsen Wellesiano escreveu um artigo descrevendo um incêndio terrível na Estefânia, um fogo posto resultado de um mal-entendido, não fazendo lembrar A Guerra dos Mundos, mas pelo menos o estilo começava a esculpir-se.

Um dos aspectos mais relevantes em Reinaldo Ferreira é ter sido um dos primeiros – o primeiro? – a introduzir a espionagem como tema da arte portuguesa. Este lado policial encontramo-lo em obras como “O homem que perdeu o cérebro” (ed. Rolim) ou no filme de Leitão de Barros “O homem dos olhos tortos”, recentemente restaurado e exibido pela Cinemateca Portuguesa. Ambos os trabalhos são produtos fantásticos que nos cativam pela criatividade e capacidade de trama – no sentido latino, tecer/ligar acontecimentos – histórias que nos conduzem para Lisboa desaparecida e misteriosa, personagens de sobrolho franzido e chapéu enfiado até ao nariz. Ou mais moderno, uma espécie de Blockbuster actual. Nada falta a estas duas obras, nem sequer um lado experimental que aproxima-se muito dos experimentalistas dos anos 50 ou 60. A estética arrojada e lançada para um caminho que só poderia conduzir a um lado genial e mítico. A medida temporal das palavras de Reinaldo Ferreira são controladas com precisão, uma ampulheta que impede a criação de novas palavras quando o último grão de areia passa no estreito canal.

Apenas existe uma lacuna em Reinaldo Ferreira: Leitores e espectadores. Podia sintetizar as duas obras acima citadas, mas como a narração seria feita com paixão e por certo desvendaria todo a história, prefiro que a procura e descoberta sejam individuais.

A sua vida é pouco conhecida, muitos mitos e histórias são contados, o seu percurso é efabulado como uma personagem ficcional e apenas um romance contaria a sua verdade.

“Reinaldo (de realidade) e Ferreira (de ficção)” nasceu em Lisboa em 1897 e morreu na mesma cidade em 1935.









2008/02/22

DA JUGOSLÁVIA À JUGOSLÁVIA




Para quem não gosta de ir na corrente e tomar por bom tudo o que lhe metem no prato, deixo aqui duas referências sobre a actual situação nos Balcãs.

A primeira é o Underground de Emir Kusturica. "Em Abril de 1941, Marko e o seu amigo Blacky trabalham no mercado negro, organizando ao mesmo tempo a resistência contra os nazis. Em 43, Marko esconde Blacky numa cave. Este é procurado pelos alemães. Em 44 é a paz, mas Marko convence Blacky de que o país continua em guerra. Em 61, Blacky descobre a traição do seu amigo. Em 91, Ivan sabe da impostura do seu irmão Marko e do novo drama que destrói a sua terra natal. «Underground»: era uma vez um país..."

A segunda é o livro de Carlos Santos Pereira sobre a desagregação da Jugoslávia e o papel das potências ocidentais naquele território.

Este post é sobretudo uma manifestação de solidarieade com o povo Sérvio e um reconhecimento da sua capacidade de resistência.

2008/02/10

DUAS REFERÊNCIAS TARDIAS, MAS INCONTORNÁVEIS




LUIS RALHA

Faleceu na semana passada Luis Ralha, artista plástico. Cursou pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e artes decorativas no Liceu António Arroio. Detentor de um trabalho ímpar e de um curricula impressionante. Além das qualidades artísticas, Luis Ralha possuia raras qualidades humanas. Todo o seu trabalho foi um manifesto. Cada obra sua é uma narrativa.
Em Loures colaborou na programação de exposições de artes plásticas no Município. Foi autor de uma escultura evocativa dos 30 anos do 25 de Abril no centro de Santa Iria de Azóia. Deste trabalho, “Cravo em construção” , recordo a inauguração, durante a qual, num largo cheio de pessoas, Luis Ralha descodificou o sua criação, desvendando-lhe os segredos, oferencendo-a em definitivo àqueles, para quem afinal a concebeu.


LUIZ PACHECO

Sentindo-me incapaz de escrever algo sobre a figura, socorro-me de um texto publicado em TRIPLOV.COM.

"Em 1997, Luiz Pacheco, que fez da mendicidade um modo de vida, estava principescamente instalado na Vila Máryah, uma luxuosa estância de repouso para idosos, em Palmela. Eu visitava-o de vez em quando por causa da edição de "Carbonários: Operação Salamandra - Chioglossa lusitanica Bocage, 1865", que saiu na Contraponto, a sua conhecida editora, afecta ao Surrealismo. Raramente o encontrei sozinho, ele tem sempre muitas visitas, de modo que se cruzavam amigos, conversas e destinos. De uma vez deixámos passar a hora de saída e a porta foi fechada, encarcerando os forasteiros. Em vão se procurou o porteiro, nada, um táxi lá fora esperava, a palaciana residencial aninha-se num pinhal isolado, longe da povoação. Caía a noite, e se o taxista desistisse da espera lá teríamos de dormir com o Libertino que passeou por Braga, a idolátrica, o seu esplendor. De modo que, para aflitivos cárceres, fugas airosas, e foi mesmo pela janela, estilo Zé do Telhado, mas com aterragem de corpo inteiro, mais o saco dos livros desfolhados, no canteiro dos lírios, como convém nestes lances da nossa árdua vida literária.
A situação é suspeita, viola algumas normas sociais, morais até, mas os intervenientes sabem da sua intrínseca inocência, e só isso é fundamental: a moral é um colete de forças que o grupo dominante aplica ao dominado para salvaguardar a sua prepotência, mas o Bem e o Mal são completamente distintos e independentes disso - pode o Mal estar de mão dada com a moral e o Bem contra ela, como foi o caso.
Refiro-me a essa emblemática edição cujo 33º aniversário o TriploV comemora, no âmbito das suas actividades em torno do Surrealismo - O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor (Contraponto, 1970). No caso, a imoralidade reduz-se a uns palavrões, que são palavras que todos conhecemos e figuram nos bons dicionários, ao pecado dos maus pensamentos e a um acto sexual. Porém, a moralidade sexual que o livro violou em 1970 hoje já não vigora. Esse acto sexual cometido, único, pois todos os outros são apenas delírios da imaginação, é aquele que neste preciso instante o governo de Inglaterra tenta que as escolas ensinem ou promovam junto dos alunos, num desesperado esforço para que baixe a altíssima taxa de gravidez em menores - a masturbação.
E aqui estou eu a falar destas coisas, como se fossem importantes, e são. A moral muda consoante o grupo dominante e as necessidades do grupo social, o que não muda é a ética. Ora o livro não viola nenhuma ética, pelo contrário: as conversas no quarto da pensão, com o sargento, por exemplo, giram em torno da PIDE, do que se passava em "Angola-é-Nossa", e o texto que o Libertino lhe passa para as mãos não é a "Filosofia da Alcova", sim o "Depoimento de uma angolana", sobre as atrocidades cometidas contra os negros, que tem vindo a ser reeditado juntamente com "O Libertino...". À parte os devaneios de imaginação de um homem cuja libertinagem é quase só mental - e nas Bragas daquele tempo os pensamentos eram tão pecaminosos como os actos -, o espírito ocupa-se de livros, os livros que os portugueses não lêem, a vida acanhada em tempos de opressão, e até a tentativa de sedução das Super-Gèninhas se faz de forma letrada, com os bilhetinhos escondidos na cápsula das castanhas.
A libertinagem, nesse sentido de liberdade sexual sem mais, deixou de ser importante numa época - a nossa - em que as raparigas saem à noite e são industriadas pelos pais no uso de preservativos. O texto, agora, torna-se cómico nesse lado, rimos com gosto de certas situações. Não que tenha perdido a força, mas porque de facto a função do libertino foi a de mostrar quão ridículo era aquele puritanismo, simplesmente esse ridículo só é perceptível quando já não estamos sob o domínio da "idolátrica" - Braga, como símbolo da repressão que a Igreja sempre exerceu sobre o corpo, e desse labéu lançado sobre o prazer. Quanto ao regime, a propaganda salazarista reprimia a mente, a liberdade de pensar e desejar também, enquanto a sua élite se entretinha com os ballets rose. Sob a tirania, ninguém teria vontade de rir, o riso vem agora, em que há liberdade para ele. É claro que num país tacanho, de gente ferozmente agredida no corpo e na alma, não há espaço para D. Juan, Sade nem Casanova, apenas para um pobre diabo que deseja e não alcança - tudo lhe corre mal, e de fracasso em fracasso só lhe resta a solução onanista. É um libertino à escala do país que éramos, por isso tão perfeito retrato nosso que Júlio Moreira, posfaciador da primeira edição, considera que o texto nos dá uma imagem muito mais exacta da realidade portuguesa do que toda uma literatura que se pretende interferente.
Mudados os tempos, o que sobra de "O Libertino..." e de Luiz Pacheco? Sobra tudo, que eu saiba ele ainda não foi estudado como a sua obra merece, perdidos que temos andado nos meandros das querelas pessoais e sexuais. Luiz Pacheco é um escritor absolutamente singular, não só na nossa literatura como em termos gerais. Ele não é um Sade, um Casanova, e isso é importante: pelo contrário, é totalmente diverso. O papel tradicional do macho está subvertido, ele não é um representante do falocentrismo, e nesse sentido não é um agressor, é um agredido. Não é um conquistador, é um conquistado; não é um amante, é um amador. A personagem carrega toda a humilhação e frustração do país.
Tradição fescenina e maledicente encontramo-la entre nós e e noutras literaturas desde as cantigas de escárnio, e não esqueçamos Bocage, mas Luiz Pacheco é muito diferente de Bocage, a sua veia quezilenta e debochada não se acomoda com nenhum parentesco. Surrealismo? Ele nega ter sido surrealista e é num texto surrealista que o afirma e mais: Deus o livrasse de tal - isto logo à entrada de "Pacheco versus Cesariny". Pois sim. Acontece porém que "O Libertino", como todos os outros textos de Luiz Pacheco, só teria sido possível na mundividência surrealista, à sombra da bandeira "poesia e liberdade": vida e obra são a mesma coisa, o anti-herói de "O Libertino" é o próprio Luiz Pacheco, que à data, em 1965, andava nas carrinhas da biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a distribuir livros pelas aldeias para alfabetização geral. O desprendimento, a coragem com que se fala daquilo que em nós é mais íntimo e privado, sem a máscara da personagem, a espontaneidade de um relato que não foi decerto fruto de escrita automática, mas aceitemos que foi redigido no dia a seguir ao dos eventos, isso também pertence à esfera de procedimentos do Surrealismo. Ou abjeccionismo, termo aliás usado no texto. E tudo o que se relata aconteceu? É bem possível que sim, por obra e graça de acasos objectivos que juntaram Braga, o Libertino e Angola-é-Nossa num mesmo texto que, só por isso, ganha um volume simbólico não alcançado realmente por obras de esquerda, muito mais direccionadas politicamente. "


Desenhos de Henrique Manuel. In Luiz Pacheco, Textos Malditos, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, Lisboa, 1977.

2008/02/09

LÁZARO




é tempo de simulares a ressurreição

ergue-te da eternidade dos astros

escava nas veias três dias mortas

o sonho

e no fundo do espelho respira alegria

sobre o rosto escuro como um mingrólio

acende-te

na humidade sonolenta das mãos

finge a vida

mesmo que permaneça morto

bebe

a perene memória das imagens
levanta-te de mim Lázaro

como se fosses água ainda turva

sublima-te com o delicado fulgor da respiração

e não ao contínuo movimento falso

do coração


de «A Noite Progride Puxada à Sirga»: Sete Poemas do Regresso de lázaro, 1985

2008/02/08

1808




O Governo e o Rei estão a meio do Atlântico, deixaram a Europa dia 10 de Fevereiro, em fuga, ou, de acordo com outras perspectivas, pondo em prática uma estratégia de manutenção da independência nacional. Dirigem-se ao Brasil. As forças francesas ocupam e controlam o território nacional. Os ocupantes trazem a liberdade na ponta da baioneta. É para mim um momento de indecisão. Talvez seja hora de voltar? Lá para 7 de Março as elites portuguesas voltam a por pé em terra firme, ainda que do outro lado do Atlântico, voltarão a governar.

É um momento sublime para Portugal e para o Brasil. Durante quase dois meses, neste ano de 1808, as elites governativas portuguesas estão de quarentena a meio do vasto mar. Já não governam em Lisboa, nem a partir de Lisboa, e ainda não governam no Rio de Janeiro, nem a partir do Rio de Janeiro.

Dia 7 de Março, será o primeiro dia do futuro do Brasil. Que Deus os ajude! Pés no Brasil, procura-se cama e mesa, apresentam-se cumprimentos, apreciam-se as vistas... Dia 1 de Maio, declara-se oficialmente guerra à França que nos ocupara, já lá vão três meses!

Este pequeno texto de introdução serve em primeiro lugar para dizer, - Olá, estou de volta. A ausência foi prolongada e total. Quase três meses sem passar as ombreiras deste Palácio, nem sequer uma breve espreitadela por cima dos muros. Foi de tal modo longa a ausência, que me sinto a entrar em casa alheia. Está quase tudo na mesma. O Palácio está habitável e é frequentado, e vejo que a minha afilhada, francesa mas não invasora, soube fazer a sua manutenção. Publicamente, deixo-lhe uma palavra de agradecimento pela sua regularidade e qualidade. Quase que me sinto impelido a pedir-lhe licença para voltar a entrar.

Em segundo lugar, o pequeno texto introdutório serve também para um conselho literário. 1808 de Laurentino Gomes, é um livro sobre a “fuga da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, um dos momentos mais apaixonantes e revolucionários do Brasil, de Portugal e do mundo. Guerras napoleónicas, revoluções republicanas, escravidão formaram o caldo no qual se deu a mudança da corte portuguesa e sua instalação no Brasil. O propósito deste livro, resultado de dez anos de investigação jornalística, é resgatar e contar de forma acessível a história da corte portuguesa no Brasil e tentar devolver seus protagonistas à dimensão mais correcta possível dos papéis que desempenharam."

2007/11/01

1º DE NOVEMBRO




Estou em frente ao Tejo. O sol outonal reflecte-se nas suas águas, prateando-as e acentuando a sua acalmia. Há mais de 250 anos, este mesmo rio, calmo e sereno, onde centenas de lisboetas procuraram refugio depois de longos minutos de tormenta, ergueu-se transfigurado. Olhando o rio, é difícil imaginar essa manhã de 1755. Aproveito para relembrar dois dos melhores contributos que li para a compreensão desse momento histórico e das suas inimagináveis consequências, O Pequeno Livro do Grande Terramoto, de Rui Tavares, e 1755 - O Grande Terramoto, de Filomena Oliveira e Miguel Real.

2007/09/08

NA CASA DO VIZINHO V


Imagem retirada daqui..

AINDA EDUARDO PRADO COELHO
BAIRRO ALTO
(…) Terminada a agitação do 25 de Abril (quando se tinha abolido o Estado antes da socialização dos meios de produção), em que todas as noites reinventávamos o mundo desde o princípio, tínhamos descido até aos bares canalhas do Cais do Sodré, por entre chulos e marinheiros. O mais conhecido tinha sido o "Jamaica". Depois houve no Conde Barão "As Noites Longas", com o então famoso Zé da Guiné hoje esquecido e doente), e hordas de gente que dançava e ceava e andava escada acima escada abaixo. Só depois subimos ao "Frágil". Aí formámos uma constelação de pessoas que o Mário Cabrita Gil fotografou sobre um pano negro, e a que deu o nome de "A Idade da Prata". Podia-se também dizer que éramos "pós-modernos", palavra eslava na moda e eu procurara teoriza-la um pouco. O Ricardo Pais pusera em cena essa nova realidade do "pós-modernismo'". 'Na arquitectura, na pintura, mais tarde na literatura, encontrávamos formas novas nas práticas artísticas que poderiam aparecer designadas na ideia comum de "pós-modernidade". Mais tarde, um livro de Jean-François Lyotard fez da "pós-modernidade" uma condição, mais do que uma vontade deliberada: era preciso reescrever a modernidade sobre um horizonte em ruínas, que vinha da falência das grandes narrativas que haviam preenchido a filosofia da história. Uns desgarrados do catolicismo e das suas catequeses, outros órfãos de um marxismo que levara directamente às sociedades totalitárias, todos vinham dançar para o "Frágil" e passear pelas ruas do Bairro Alto. Às vezes, mais soturnos, refugiavam-se na "Capela". Quando saíam procuravam tropegamente um táxi e vomitavam na valeta. Amigos solidários punham-lhes a mão na testa como faziam as mães com os filhos doentes. Quando tu passas a mão pela minha cabeça, é tudo tão verdade. Um dia apareceste coberto de ligaduras brancas, numa provocação deliberada. E andaste assim de bar em bar. Até que numa cena de ciúmes alguém puxou de uma navalha e rasgou-te a carne. O sangue saiu às golfadas. Chamou-se uma ambulância para onde entraste em maca. Mais tarde, voltaste lá e ajoelhaste para tocar com os dedos o local do sangue. E depois lambeste o sangue como quem entrasse num incesto interminável. Um circuito que se formava com os arames da roupa estendida. E acendia-se um arco-íris que transformava a noite num incêndio. Eram anos de prata que se desfaziam lentamente em neve e cinza."
Eduardo Prado Coelho, in "Nacional e Transmissível", 2006

2007/08/18

A VIDA IMPERIAL NA CIDADE ESMERALDA


Imagem retirada daqui.
Uma parte ínfima do Iraque já está ao nível das zonas mais prósperas dos Estados Unidos. Este pequeno enclave no meio da Bagdad em guerra é conhecido como a Cidade Esmeralda. Nele está instalada a administração da força ocupante do Iraque. O espaço destoa em tudo do país em chamas que o rodeia, o aspecto limpo, as vivendas luxuosas, a paisagem verdejante, os equipamentos de desporto, lazer, os centros comerciais, os restaurantes, bares e cafés, os carros novos que circulam pelas artérias impecavelmente pavimentadas, o hospital completamente apetrechado, fazem rapidamente esquecer que para lá dos muros fortemente guardados deste paraíso o inferno em que está transformado o Iraque, consome em chamas largas dezenas de pessoas por dia só em atentados e acções militares.

O livro de Rajiv Chandrasekaran, A vida imperial na Cidade Esmeralda, descreve esta realidade, denunciando criticamente o afastamento dos ocupantes desse espaço em relação à realidade extramuros.

“Não fosse os contentores verdes com cruzes vermelhas empilhados na rua, eu nunca teria encontrado o hospital da Zona Verde. Parecia-se com dezenas de outras moradias de mármore e grés que existiam em redor do Palácio Republicano. A fachada tinha seis pisos, as janelas eram coloridas e havia palmeiras nos lados e nas traseiras do edifício. Uma placa modesta junto à entrada, parecida com a placa de uma loja qualquer, identificava o edifício.
Uma vez no interior, porém, não havia dúvida de que o edifício de três andares era um moderno hospital militar americano. Tinha cinco blocos operatórios, dez salas de emergências e 76 camas. Havia ventiladores, monitores cardíacos computorizados e um aparelho de TAC. Neurocirurgiões e especialistas em queimaduras estavam prontos para tratar os feridos das explosões de bombas nas estradas.
O hospital estava protegido da fina areia do deserto que se via em todo o Iraque. O chão de mosaico branco estava sempre limpo, bem como as paredes e as janelas. Só as botas da tropa dos médicos da sala de emergência estavam sujas. Em vez de castanho claras, eram pretas e estavam manchadas de sangue.
(…) tinha mais de 350 médicos, enfermeiros e pessoal de apoio na Zona Verde.Antes da guerra, o hospital era uma clínica privada para os familiares de Saddam e dirigentes do Partido Baas. Quando os Americanos chegaram continuou a ser um estabelecimento privado, reservado a militares, pessoal da CPA e empresas privadas. Os únicos Iraquianos admitidos eram aqueles que tinham sido acidentalmente alvejados por tropas americanas.
Apesar da sua admissão selectiva de Iraquianos, Tommy Thompson, o secretário para os serviços de saúde e humanos, usou o hospital como fundo para louvar a Coalition provisional Authority (CPA) durante uma visita a Bagdad, 11 meses depois do início da ocupação. Este hospital, anunciou ele sob o pórtico, era um exemplo de como os Estados Unidos tinham começado a «restabelecer o Iraque como um centro de excelência de cuidados de saúde».
Nenhuma dessa excelência era visível fora da Cidade Esmeralda.O Hospital Yarmouk, um conjunto de edifícios de dois pisos de betão, erigidos em redor de uma praça de betão, ficava a cinco minutos de carro da Zona Verde, apenas a alguns quarteirões de distância na estrada em direcção ao aeroporto. Era um dos maiores e mais movimentados centros médicos de Bagdad, mas depois de visitar mais de uma dúzia de outros hospitais do Iraque, comecei a ver o Yarmouk como um bom representante do sistema de saúde do país. Era, muito simplesmente um desastre.


Não havia nada limpo. Os lençóis estavam sujos, o chão manchado de sangue, as casas de banho inundadas. Os quartos não tinham o equipamento mais básico para vigiar a pressão arterial ou o batimento cardíaco dos doentes. Os blocos operatórios trabalhavam sem instrumentos cirúrgicos modernos nem sistemas de esterilização. Os armários de medicamentos estavam vazios. Na sala de emergências, algumas macas manchadas de sangue lançavam sombras escuras sobre o chão. Não havia desfribilhadores, ventiladores, equipamento de transfusão de sangue, nem injecções de epinefrina.
Visitei o hospital pela primeira vez algumas horas depois de um bombista suicida ter arrasado a embaixada Jordana com o seu carro armadilhado. A ala das urgências ecoava com os gritos de homens cujos braços tinham sido arrancados, mas que não receberam nada para aliviar a dor. Cheirava a sangue, a excrementos e a cadáveres que tinham sido guardados sem refrigeração. Familiares desesperados juntavam-se à volta dos seus entes queridos, que estavam tão queimados e mutilados que não sobreviveriam à noite. Toquei na mão de um jovem magro, Abbas Ali, que tinha as pernas e o abdómen cobertos daquilo que pareciam ser queimaduras de terceiro grau. Tremia, mas não chorava. Repetia, incessantemente, as palavras «Bismillab ar rahman ar rahim» «Bismillab ar rahman ar rahim». (Em nome de Deus, o beneficente, o misericordioso). Um médico disse ao meu intérprete que Abbas não teria mais do que um ou dois dias de vida. «Não posso fazer nada», disse ele. «Não temos equipamento para tratá-lo».


A história do Hospital Yarmouk era a mesma que a de quase todas as outras instituições públicas do Iraque. Nos anos 70, era um dos melhores centros médicos no mundo árabe. Jordanos, Sírios e Sudaneses viajavam para Bagdad para serem operados. Isto mudou, obviamente, após a invasão do Kuwait e a imposição de sanções. Embora Saddam tenha sido depois autorizado a vender o seu petróleo por alimentos e bens humanitários, o hospital nunca teve medicamentos suficientes. O Governo acusava as Nações Unidas de alterarem as ordens de compra. As Nações Unidas acusavam o governo de encomendar os bens errados e de fazer compras a burlões em vez de a fornecedores com reputação. A Administração Bush acreditava que o governo de Saddam, que tentava obter apoio internacional para que as sanções fossem levantadas estava a privar deliberadamente o Yarmouk e outros hospitais de bens necessários.Por muito mal que o hospital estivesse antes de os americanos chegarem, ficou muito pior quando o exército americano entrou na cidade. Um disparo de um tanque atingiu o hospital no dia em que o governo de Saddam caiu, inutilizando o gerador e enviando os médicos para casa. Sem ninguém para guardar o edifício, os saqueadores levaram tudo, desde camas, medicamentos, equipamentos do bloco operatório, até aos aparelhos de TAC e de ecografias. Quando os médicos voltaram ao trabalho, tiveram de lutar para providenciar primeiros socorros com equipamentos improvisados.”

Chandrasekaran, Rajiv, "A vida imperial na cidade esmeralda", E70

«Este livro extraordinário afasta a cortina da ilusão e revela, de forma assombrosa, o que realmente aconteceu na Cidade Esmeralda no ano crucial após a derrube de Saddam Hussein. A reportagem de Chandrasekaran é plena de detalhe e impediosa na sua documentação do misto de idealismo, confiança, energia, hubris, erros políticos, cegueira cultural e pensamento fantástico daqueles que vieram para salvar o Iraque e tornaram a situação ainda mais grave.» David Maraniss, autor de They Marched into Sunlight, Retirado do Webboom

2007/08/15

COMO JÁ NINGUÉM SE LEMBRA DE TORGA




ORFEU REBELDE

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.
Miguel Torga
ASENSIO