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2008/05/08

ZONA FRANCA




Assinalo o meu regresso ao Palácio, publicando um texto que Mário Crespo, Jornalista, escreveu recentemente no JN. O tema continua mais actual do que nunca. O apelo feito ao Governo português por um cidadão detido em Guantanamo, que atesta ter passado por território nacional, vem tornar claro que só mesmo as autoridades nacionais continuam a acreditar na palavra da administração norte-americana.
*
"O documentário sobre o holocausto Shoah, de Claude Lanzmann, dura nove horas e meia. Grande parte da obra consiste em entrevistas conduzidas nas aldeias do Sul da Polónia por onde passava o comboio com prisioneiros para os campos de extermínio nazis, em Birkenau e Auschwitz. Lanzmann detectou duas atitudes genéricas dos aldeões à passagem dos comboios. Ou ignoravam ou, quando olhavam, faziam aquele sinal universal de morte anunciada que é passar rapidamente o indicador direito pelo pescoço, numa pantomina simbólica de um degolamento. Das entrevistas de Lanzmann, conclui-se que os camponeses polacos sabiam qual o destino dos prisioneiros. Mas, não se consegue entender o significado dessa comunicação com os condenados com um gesto prenunciador da morte que vinha aí.

Seria um acto atormentador que se integrava no martírio dos indesejáveis em que a população polaca foi activamente cúmplice? Seria um aviso? Seria uma daquelas crueldades brincalhonas que frequentemente surge com a habituação ao horror? Lanzmann, além de jornalista é um filósofo. Foi colega de Sartre e Beauvoir e, apesar das análises semióticas que fizeram das entrevistas, a ausência de conclusão clara deixa-nos num vazio angustiante quanto aos alcances da crueldade humana.

Por razões de pudor residual ou estratégia, os nazis implantaram as máquinas de morte industrial bem longe do seu território nacional. Esconderam-nas nos limites do império (a Polónia aparece em documentação nazi referida como Ostdeutschland - Alemanha de Leste). Para as dissimular, usaram subterfúgios tão elaborados que hoje é difícil reconstituir com exactidão histórica o intenso tráfego ferroviário entre a Alemanha e Auschwitz-Birkenau, tal foi o encobrimento nas rotas, nos manifestos de carga, nas falsas origens e falsos destinos.Nas ligações entre Guantanamo e as Lajes nós estamos a portar-nos como os camponeses polacos analisados por Lanzmann. Ou fingimos que não vemos ou fazemos gestos inconclusivos. No tratamento daqueles que a América suspeita de terrorismo, a base nos Açores tem sido o equivalente a um apeadeiro na linha entre a Alemanha e Auschwitz, onde o guarda-freio levanta a bandeira verde na noite escura, indicando que o caminho está livre para os indesejáveis acorrentados seguirem até às câmaras de tortura, no enclave americano em Cuba (isto não é metáfora. Os prisioneiros vão mesmo acorrentados e tortura-se em Guantanamo.

Quanto ao número de mortos, não se sabe. Ainda). Por ser um pacto militar, a sociedade civil em Portugal desconhece muito do acordo das Lajes. Isso dá ao Governo imensa latitude de evasivas nas explicações que lhe são pedidas. A 30 de Janeiro de 2008, o primeiro-ministro dizia no Parlamento poder garantir que nunca tinha sido nem consultado nem autorizara o trânsito em território nacional de prisioneiros para Guantánamo, insistindo que "esses dois actos" (consulta e autorização) nunca tinham existido. Portanto, nada aqui diz que não tenha existido o transporte sem consulta e sem autorização. Há outros indícios da ambiguidade oficial. A ONG Landmine Monitor, sobre o trânsito de cargas militares proibidas por aviões americanos nas Lajes, diz que as respostas que recebeu de três diplomatas portugueses do MNE e da Defesa inquiridos, João Pimentel, Vilar de Jesus e Fernando Brito, descrevem a expectativa do Governo português de que os americanos cumpram com o acordo, declarando voluntariamente os manifestos das cargas que transportam, mas admitiram que não há nenhum mecanismo formal de inspecção portuguesa das aeronaves americanas que transitam pela Terceira (Landmine Monitor Report 2004). Logo, tudo pode passar pelas Lajes. De material de guerra proibido, a gente raptada e acorrentada. Se não for declarado, ninguém fiscaliza. Acredita-se.

A verdade oficial que vem desde o actual primeiro-ministro aos diplomatas é que os americanos não solicitaram autorizações nem foram concedidas autorizações. Mas há outros elementos. Prisioneiros que transitaram pelas Lajes têm feito depoimentos denunciando as escalas nos Açores. O "60 Minutos", da CBS, fez várias reportagens atestando este tráfico maldito que oficialmente Portugal diz desconhecer. Kurt Volker é o negociador americano da nova versão do acordo das Lajes. Questionado pelo "Expresso", recusou-se a comentar o transporte ilegal de prisioneiros. Uma recusa de comentário é nos Estados Unidos um acto mediaticamente muito significativo.

A 21 de Fevereiro deste ano, o Governo de Bush reconheceu e pediu desculpas públicas ao Reino Unido por ter usado a base britânica em Diego Garcia para o trânsito de prisioneiros de guerra, depois de Londres dizer que considerava "muito grave" esse tráfego não-autorizado. Com a passividade, Lisboa e os americanos ainda se podem refugiar num "no comment" porque a atitude de sucessivos governos portugueses fez da base das Lajes uma Zona Franca dos direitos humanos."

Mário Crespo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras

2008/02/22

DA JUGOSLÁVIA À JUGOSLÁVIA




Para quem não gosta de ir na corrente e tomar por bom tudo o que lhe metem no prato, deixo aqui duas referências sobre a actual situação nos Balcãs.

A primeira é o Underground de Emir Kusturica. "Em Abril de 1941, Marko e o seu amigo Blacky trabalham no mercado negro, organizando ao mesmo tempo a resistência contra os nazis. Em 43, Marko esconde Blacky numa cave. Este é procurado pelos alemães. Em 44 é a paz, mas Marko convence Blacky de que o país continua em guerra. Em 61, Blacky descobre a traição do seu amigo. Em 91, Ivan sabe da impostura do seu irmão Marko e do novo drama que destrói a sua terra natal. «Underground»: era uma vez um país..."

A segunda é o livro de Carlos Santos Pereira sobre a desagregação da Jugoslávia e o papel das potências ocidentais naquele território.

Este post é sobretudo uma manifestação de solidarieade com o povo Sérvio e um reconhecimento da sua capacidade de resistência.

2007/09/13

TIBETE, O PARAÍSO PERDIDO DOS DALAI LAMA


Imagem retirada daqui, 13º Dalai Lama.
.
Perante o muito que se tem dito sobre a visita do 14º Dalai Lama, decidi publicar algumas notas soltas sobre o Tibete ao tempo dos Dalai Lama.


"Por altura da revolução, a população do Tibete vivia extremamente dispersa. Cerca de dois ou três milhões de tibetanos viviam numa área quase igual a metade dos Estados Unidos – 3,9 milhões de quilómetros quadrados [cerca de 40 vezes Portugal ou metade do Brasil – NT]. As aldeias, mosteiros e acampamentos nómadas estavam frequentemente separados por muitos dias de viagem árdua.
Os revolucionários maoistas viram que havia “Três Grandes Carências” no velho Tibete: carência de combustível, carência de comunicações e carência de pessoas. Os revolucionários concluíram que essas “Três Grandes Carências” não eram causadas pelas condições físicas, mas sobretudo pelo sistema social. Os maoistas disseram que as “Três Grandes Carências” eram causadas pelas “Três Abundâncias” da sociedade tibetana: “Abundância de pobreza, abundância de opressão e abundância de temor ao sobrenatural”.

"Os servos tibetanos raspavam as colheitas de cevada da terra dura com arados e foices de madeira. Criavam cabras, ovelhas e iaques para obterem leite, manteiga, queijo e carne. Os aristocratas e os lamas dos mosteiros eram proprietários das pessoas, da terra e da maioria dos animais. Forçavam os servos a entregar a maioria dos cereais e exigiam todo o tipo de trabalhos forçados (chamados ulag). Entre os servos, tanto os homens como as mulheres participavam no trabalho duro, incluindo o ulag. Os povos nómadas dispersos pelas áridas terras altas do Tibete ocidental também eram propriedade dos senhores feudais e dos lamas."

"Os servos eram tratados como seres “inferiores” menosprezados – tal como eram tratados os negros no sistema Jim Crow do Sul dos EUA. Os servos não podiam sentar-se nos mesmos sítios, usar o mesmo vocabulário ou comer com os mesmos talheres que os seus donos. Tocar num dos pertences dos amos poderia mesmo ser punido com chicotadas."

"Há relatos de mulheres queimadas por darem à luz gémeos ou por praticarem a religião tradicional pré-budista (conhecida como Bon). Os gémeos eram considerados prova de que a mulher tinha acasalado com um mau espírito. Os rituais e a medicina popular da Bon eram considerados “bruxaria”. Como noutras sociedades feudais, as mulheres da classe alta eram vendidas em casamentos arranjados. A tradição permitia que um marido cortasse a ponta do nariz da mulher caso descobrisse que ela tinha dormido com outra pessoa. As práticas patriarcais incluíam a poliginia (em que um homem rico podia ter muitas mulheres) e, nas famílias nobres das terras mais pobres, a poliandria (em que uma mulher era forçada a ser esposa de vários irmãos). "

"Cerca de 2% da população do Tibete pertencia a essa classe alta e mais 3% eram seus funcionários, encarregados, mordomos, gerentes das propriedades e oficiais dos exércitos privados. A ger-ba, uma minúscula elite de cerca de 200 famílias, governava no topo do sistema. Han Suyin escreveu: “Apenas 626 pessoas possuíam 93% de toda a terra e riqueza e 70% de todos os iaques do Tibete. Entre essas 626 pessoas estavam 333 dirigentes de mosteiros e responsáveis religiosos e 287 autoridades laicas (incluindo nobres do exército tibetano) e seis ministros do governo”.

"Os maiores mosteiros alojavam milhares de monges. Cada mosteiro “pai” criava dezenas (ou mesmo centenas) de pequenas praças-fortes dispersas pelos vales das montanhas. Por exemplo, o enorme mosteiro de Drepung alojava 7000 monges e era proprietário de 40 000 pessoas em 185 diferentes propriedades com 300 pastos."

"Os servos ficavam frequentemente doentes de desnutrição. A comida tradicional das massas é uma polpa feita de chá, manteiga de iaque e uma farinha de cevada chamada tsampa. Os servos raramente comiam carne. Um estudo feito em 1940 no Tibete oriental dizia que 38% das casas nunca tinham qualquer chá – e apenas bebiam ervas selvagens ou “chá branco” (água fervida). Setenta e cinco por cento das casas eram por vezes forçadas a comer relva. Metade das pessoas não tinha possibilidade de obter manteiga – a principal fonte de proteínas disponível.
Entretanto, um importante santuário, o Jokka Kang, queimava diariamente quatro toneladas de ofertas de manteiga de iaque. Calcula-se que um terço de toda a manteiga produzida no Tibete se transformava em fumo em quase 3000 templos, sem contar com os pequenos altares em cada casa."

Os parágrafos citados podem ser lidos no seu contexto original aqui.

2007/09/11

O OUTRO 11 DE SETEMBRO, COM O BENEPLÁCITO DO IMPÉRIO


Imagem retirada daqui.
" Ode ao Tempo
A tua idade dentro de ti
crescendo,
a minha idade dentro de mim
andando.
O tempo é resoluto,
não faz soar o sino,
cresce e caminha
por dentro de nós,
aparece
como um lago profundo
no olhar
e junto às castanhas
queimadas dos teus olhos
um filamento, a pegada
de um minúsculo rio,
uma estrelinha seca
subindo para a tua boca.
Nos teus cabelos
enreda o tempo
os seus fios,
mas no meu coração
como uma madresilva
está a tua fragância,
incandescente como o fogo.
Envelhecer vivendo
é belo
como tudo o que vivemos.
Cada dia
para nós
foi uma pedra transparente,
cada noite uma rosa negra,
e este sulco no meu ou no teu rosto
é um pedra ou uma flor,
recordação de um relâmpago.
Gastaram-se-me os olhos na tua formosura
mas tu és os meus olhos.
Sob os meus beijos talvez tenha fatigado
os teus seios,
mas todos viram na minha alegria
o teu resplendor secreto.
Amor, o que importa
é que o tempo,
o mesmo que ergueu como duas chamas
ou espigas paralelas
o meu corpo e a tua doçura,
amanhã os mantenha
ou os desgarre
e com os mesmos dedos invisíveis
apague a identidade que nos separa
dando-nos a vitória de um único ser final sob a terra. "
in, Odes Elementares, Pablo Neruda

2007/09/04

SALTAR AO EIXO



Os Estados Unidos ponderam, segundo rumores não confirmados (todas as notícias nos jornais de hoje utilizam esta expressão ou outra semelhante), retirar a Coreia do Norte da lista de países constituintes do Eixo-do-Mal. Esta designação foi criada pela administração Norte-americana e incluía o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte. Neste momento, a evolução das negociações destinadas ao abandono, por parte da Coreia do Norte, do seu programa nuclear parece indicar a alteração desta categoria.No momento em que for "oficial" a saída da Coreia do Norte deste trio, já não levantará críticas de ninguém a participação do Partido do Trabalho da Coreia na próxima edição da Festa do Avante. Se entretanto a Coreia do Norte abrir os seus mercados às multinacionais americanas, mesmo que continue com o mesmo regime político, poderá mesmo ascender à categoria de Aliado, tal como acontece com muitas “democracias” árabes e do sudoeste asiático.

2007/09/03

PARECE QUE TEM SIDO TUDO UMA GRANDE ALDRABICE


Imagem retirada daqui.
W. Bush faz uma visita surpresa ao Iraque. Como diria o povo, vai de fininho! Da mentira das armas de destruição em massa, do apoio aos terroristas, ao peru de plástico, o povo iraquiano tem sido figurante sangrento numa tragédia que tem responsáveis.

2007/08/18

A VIDA IMPERIAL NA CIDADE ESMERALDA


Imagem retirada daqui.
Uma parte ínfima do Iraque já está ao nível das zonas mais prósperas dos Estados Unidos. Este pequeno enclave no meio da Bagdad em guerra é conhecido como a Cidade Esmeralda. Nele está instalada a administração da força ocupante do Iraque. O espaço destoa em tudo do país em chamas que o rodeia, o aspecto limpo, as vivendas luxuosas, a paisagem verdejante, os equipamentos de desporto, lazer, os centros comerciais, os restaurantes, bares e cafés, os carros novos que circulam pelas artérias impecavelmente pavimentadas, o hospital completamente apetrechado, fazem rapidamente esquecer que para lá dos muros fortemente guardados deste paraíso o inferno em que está transformado o Iraque, consome em chamas largas dezenas de pessoas por dia só em atentados e acções militares.

O livro de Rajiv Chandrasekaran, A vida imperial na Cidade Esmeralda, descreve esta realidade, denunciando criticamente o afastamento dos ocupantes desse espaço em relação à realidade extramuros.

“Não fosse os contentores verdes com cruzes vermelhas empilhados na rua, eu nunca teria encontrado o hospital da Zona Verde. Parecia-se com dezenas de outras moradias de mármore e grés que existiam em redor do Palácio Republicano. A fachada tinha seis pisos, as janelas eram coloridas e havia palmeiras nos lados e nas traseiras do edifício. Uma placa modesta junto à entrada, parecida com a placa de uma loja qualquer, identificava o edifício.
Uma vez no interior, porém, não havia dúvida de que o edifício de três andares era um moderno hospital militar americano. Tinha cinco blocos operatórios, dez salas de emergências e 76 camas. Havia ventiladores, monitores cardíacos computorizados e um aparelho de TAC. Neurocirurgiões e especialistas em queimaduras estavam prontos para tratar os feridos das explosões de bombas nas estradas.
O hospital estava protegido da fina areia do deserto que se via em todo o Iraque. O chão de mosaico branco estava sempre limpo, bem como as paredes e as janelas. Só as botas da tropa dos médicos da sala de emergência estavam sujas. Em vez de castanho claras, eram pretas e estavam manchadas de sangue.
(…) tinha mais de 350 médicos, enfermeiros e pessoal de apoio na Zona Verde.Antes da guerra, o hospital era uma clínica privada para os familiares de Saddam e dirigentes do Partido Baas. Quando os Americanos chegaram continuou a ser um estabelecimento privado, reservado a militares, pessoal da CPA e empresas privadas. Os únicos Iraquianos admitidos eram aqueles que tinham sido acidentalmente alvejados por tropas americanas.
Apesar da sua admissão selectiva de Iraquianos, Tommy Thompson, o secretário para os serviços de saúde e humanos, usou o hospital como fundo para louvar a Coalition provisional Authority (CPA) durante uma visita a Bagdad, 11 meses depois do início da ocupação. Este hospital, anunciou ele sob o pórtico, era um exemplo de como os Estados Unidos tinham começado a «restabelecer o Iraque como um centro de excelência de cuidados de saúde».
Nenhuma dessa excelência era visível fora da Cidade Esmeralda.O Hospital Yarmouk, um conjunto de edifícios de dois pisos de betão, erigidos em redor de uma praça de betão, ficava a cinco minutos de carro da Zona Verde, apenas a alguns quarteirões de distância na estrada em direcção ao aeroporto. Era um dos maiores e mais movimentados centros médicos de Bagdad, mas depois de visitar mais de uma dúzia de outros hospitais do Iraque, comecei a ver o Yarmouk como um bom representante do sistema de saúde do país. Era, muito simplesmente um desastre.


Não havia nada limpo. Os lençóis estavam sujos, o chão manchado de sangue, as casas de banho inundadas. Os quartos não tinham o equipamento mais básico para vigiar a pressão arterial ou o batimento cardíaco dos doentes. Os blocos operatórios trabalhavam sem instrumentos cirúrgicos modernos nem sistemas de esterilização. Os armários de medicamentos estavam vazios. Na sala de emergências, algumas macas manchadas de sangue lançavam sombras escuras sobre o chão. Não havia desfribilhadores, ventiladores, equipamento de transfusão de sangue, nem injecções de epinefrina.
Visitei o hospital pela primeira vez algumas horas depois de um bombista suicida ter arrasado a embaixada Jordana com o seu carro armadilhado. A ala das urgências ecoava com os gritos de homens cujos braços tinham sido arrancados, mas que não receberam nada para aliviar a dor. Cheirava a sangue, a excrementos e a cadáveres que tinham sido guardados sem refrigeração. Familiares desesperados juntavam-se à volta dos seus entes queridos, que estavam tão queimados e mutilados que não sobreviveriam à noite. Toquei na mão de um jovem magro, Abbas Ali, que tinha as pernas e o abdómen cobertos daquilo que pareciam ser queimaduras de terceiro grau. Tremia, mas não chorava. Repetia, incessantemente, as palavras «Bismillab ar rahman ar rahim» «Bismillab ar rahman ar rahim». (Em nome de Deus, o beneficente, o misericordioso). Um médico disse ao meu intérprete que Abbas não teria mais do que um ou dois dias de vida. «Não posso fazer nada», disse ele. «Não temos equipamento para tratá-lo».


A história do Hospital Yarmouk era a mesma que a de quase todas as outras instituições públicas do Iraque. Nos anos 70, era um dos melhores centros médicos no mundo árabe. Jordanos, Sírios e Sudaneses viajavam para Bagdad para serem operados. Isto mudou, obviamente, após a invasão do Kuwait e a imposição de sanções. Embora Saddam tenha sido depois autorizado a vender o seu petróleo por alimentos e bens humanitários, o hospital nunca teve medicamentos suficientes. O Governo acusava as Nações Unidas de alterarem as ordens de compra. As Nações Unidas acusavam o governo de encomendar os bens errados e de fazer compras a burlões em vez de a fornecedores com reputação. A Administração Bush acreditava que o governo de Saddam, que tentava obter apoio internacional para que as sanções fossem levantadas estava a privar deliberadamente o Yarmouk e outros hospitais de bens necessários.Por muito mal que o hospital estivesse antes de os americanos chegarem, ficou muito pior quando o exército americano entrou na cidade. Um disparo de um tanque atingiu o hospital no dia em que o governo de Saddam caiu, inutilizando o gerador e enviando os médicos para casa. Sem ninguém para guardar o edifício, os saqueadores levaram tudo, desde camas, medicamentos, equipamentos do bloco operatório, até aos aparelhos de TAC e de ecografias. Quando os médicos voltaram ao trabalho, tiveram de lutar para providenciar primeiros socorros com equipamentos improvisados.”

Chandrasekaran, Rajiv, "A vida imperial na cidade esmeralda", E70

«Este livro extraordinário afasta a cortina da ilusão e revela, de forma assombrosa, o que realmente aconteceu na Cidade Esmeralda no ano crucial após a derrube de Saddam Hussein. A reportagem de Chandrasekaran é plena de detalhe e impediosa na sua documentação do misto de idealismo, confiança, energia, hubris, erros políticos, cegueira cultural e pensamento fantástico daqueles que vieram para salvar o Iraque e tornaram a situação ainda mais grave.» David Maraniss, autor de They Marched into Sunlight, Retirado do Webboom

2007/08/13

AS PALAVRAS SÃO COMO AS CEREJAS


Começou por ser um breve comentário ao texto de Tavares Moreira no 4R-Quarta República, mas foi crecendo, pelo que o coloco também aqui.
Antes do país ter sido arruinado por mais de 20 anos de guerra e seca as principais produções eram Lápis-lazúli, esmeraldas, fio cirúrgico, gás natural, algodão, seda e tapetes. Infelizmente o Afeganistão viu-se envolvido no braço de ferro, durante a guerra-fria, entre as duas potências. Aliás, diga-se em abono da verdade, que os diabolizados taliban ganharam muito em treino, técnicas e meios com os estados unidos quando foram úteis na oposição ao exército soviético a partir de 1979.
A produção agrícola quase desapareceu. A vinha, a batata, a cana-de-açúcar, milho arroz, algodão e frutas, que desempenhavam um papel importante na economia local passaram a ser importados, desequilibrando ainda mais a balança comercial e agravando a dívida externa. Com o fim destas actividades, desapareceu a pouca indústria transformadora que elas tinham propiciado.
A exploração mineira não existe num país rico em jazidas de ferro, carvão e cobre, chumbo, zinco, estanho, tungsténio. Outras das riquezas conhecidas é o gás natural, cuja reserva existente foi avaliada pelo banco mundial em 1998, em 120 biliões de m3.


O narcotráfico e a produção de opiáceas tornaram-se a grande fonte de rendimento dos grupos que disputam o território afegão. A Aliança do Norte, que governa com o apoio militar e politico dos EUA, é responsável pelo controlo de 20% da produção de ópio, apesar de controlar apenas 10% do território nacional. O Afeganistão é responsável por mais de 75% da produção mundial. Estes dados são do Observatório Geopolítico das Drogas (OGD). O preço do quilo do ópio disparou depois dos atentados de 11 de Setembro, era de 44 USD em 2000, sendo hoje cerca de 746 USD.
A intervenção militar internacional só veio agudizar a situação existente num país, em estado permanente de guerra, sem governo, o que existe só o é formalmente, porque não dispõe de uma estrutura que gira efectivamente. O território está balcanizado entre vários grupos e milícias que se financiam através do comércio do ópio e que disputam entre si o alargamento das áreas de influência. O clima generalizado, levou ainda, a uma espécie de economia de guerra que tornou lícita a exploração do narcotráfico pelas facções que culturalmente o reprimiam, como os taliban.



Desta situação é directamente responsável a intervenção internacional, impulsionada pelos EUA no seu combate ao terrorismo. Ela mais não fez do que desagregar por completo económica, social e organizativamente o estado afegão, criando as condições propícias à tomada do país pelas redes organizadas de narcotráfico internacional. Não se perspectiva para breve uma solução para este conflito. Militarmente está perdido, sendo que a saída passaria por um forte investimento na edificação de uma nova economia assente nas potencialidades locais, para tal é fundamental a paz. E essa está cada vez mais distante e é cada vez menos desejada por quem lucra com o actual estado da arte.

2007/08/11

VENEZUELA




A Venezuela é para mim motivo de grande apreensão. Se por um lado vejo com bons olhos as reformas económicas em curso, o estilo populista de Chavez prova-me alguma urticária. Assim, tenho procurado ler, de fontes diversas, tudo o que posso sobre o processo venezuelano, tentando evitar escutar e ver as intervenções de Hugo Chavez.
Este texto é bastante elucidativo sobre algumas das questões centrais, que se prendem com a institucionalização do regime e o seu enquadramento jurídico-constitucional.

“As manipulações mediáticas visando desacreditar a Revolução Bolivariana intensificam-se ao mesmo ritmo da sua orientação rumo ao Socialismo. A reacção às mentiras e a sua clarificação precisam de muito mais tempo que a produção da própria mentira, à qual, depois de desmontada, se seguem novas vagas de calúnias. Decidimos, assim, compilar as matrizes de opinião negativa mais comuns e às quais responderemos de forma curta.”


AUTORIDADE NEM SEMPRE É AUTORITARISMO

2007/08/08

É O QUE DÁ FALAR DE ASSUNTOS SÉRIOS EM PLENO AGOSTO COM AS TEMPERATURAS A RONDAR OS 40º


Texto Publicado no Avante!

"O colectivo de jovens trabalhadores da Organização Regional de Viana do Castelo da JCP realizou, no sábado, um debate sobre a situação na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), com a presença de Inês Zuber, membro do Secretariado da Direcção Nacional da JCP.
A dirigente afirmou que, ao contrário do que em geral os meios de comunicação passam, a RPDC não é um país agressor, (é antes uma ditadura difícil de enquadrar nas definições ocidentais, governada por um déspota um tudo nada para o lunático) defendendo que não é pela via do estrangulamento económico e da ameaça militar que se encontra a solução para os graves problemas da Coreia. A solução passa por meios políticos, com respeito pela vontade soberana do povo coreano (resta saber se na Coreia do Norte as opções políticas resultam do respeito pela vontade soberana do povo, e já agora expliquem-me como se afere essa vontade na Coreia do Norte. Creio que neste momento o modelo de aferição dessa vontade passa pela aceitação de que espírito do povo coreano encarnou no querido líder Kim júnior, que acredita ser deus na terra) e na perspectiva da reunificação da sua pátria.
Como referiu Inês Zuber, a RPDC é um país extremamente organizado (esta lembra anedota do tipo que percorreu vários pisos e serviços de um edifício para levantar um par de botas, concluindo no fim que em organização ninguém os bate, mas não tinham era botas para distribuir). Contudo enfrenta vários problemas económicos como a fome, os problemas energéticos e dificuldades no acesso às novas tecnologias. Os maiores problemas são as sanções económicas que pretendem bloqueá-los a nível económico e financeiro. (Talvez o que exista é um sistema económico falhado e inviável, uma sociedade despótica e corrupta que nem a ajuda e cooperação do gigante vizinho e amigo chinês consegue por a funcionar)
«Embora existam diferenças de prática e projecto de sociedade entre o PCP e o Partido do Trabalho da Coreia (deus nos livre de existirem sequer pequenas semelhanças), ambos afirmam ter como objectivo a construção de uma sociedade socialista (bem prega Frei Tomás). O que as classes dominantes querem fazer, é roubar-nos a perspectiva e a confiança na vitória, dividir as forças anti-imperialistas e enfraquecer a solidariedade internacionalista. E isso os comunistas portugueses jamais aceitarão», declarou. (As classes dominantes agradecem que as forças anti-imperialistas continuem a produzir reflexões deste calibre)

Notas pessoais a laranja: (abc)

2007/08/06

TENHO DE MUDAR DE MESA. O SOL ESTÁ A FAZER-ME MAL!




Volta e meia dedico algum tempo a ler as notícias que nos chegam da Polónia, e desse modo vou acompanhando as diatribes da dupla de irmãos Kaczyński, um Presidente e o outro Primeiro-ministro desse país. Invariavelmente as notícias relatam a sua senda extremista e conservadora. Suportados por uma coligação parlamentar, da qual talvez o seu partido seja o mais moderado, têm desenvolvido uma política de segregação social, religiosa e política. Alguns dos ecos são quase anedóticos.

“No final do ano passado um grupo de 46 deputados polacos quis proclamar Jesus Cristo "Rei da Polónia" mediante um ato parlamentar, (noticiou) o jornal "Rzeczpospolita".De acordo com o jornal, os signatários do projecto de resolução pertencem aos partidos Lei e Justiça (PiS) e Liga das Famílias Polonesas (LPR), no Governo, e ao Partido Camponês Polaco (PSL), de oposição. Lideram o grupo a deputada Halina Murias (LPR) e Artur Górski (PiS), que fazem há semanas uma campanha para convencer seus colegas a proclamar a coroação de Jesus Cristo como "Rei da Polónia".

Entretanto o Governo iniciou e tem em curso uma autêntica caça às bruxas, utilizando os ficheiros da antiga polícia política. Os cidadãos são obrigados a declarar as suas ligações e colaboração com o antigo regime comunista, declarações que serão confrontadas com os registos existentes. A lei é conhecida pela Lei de Verificação de Biografias. Vários sectores da sociedade polaca manifestaram o seu desagrado com esta iniciativa, iniciando um movimento de desobediência à sua aplicação. Entre os contestatários encontram-se muitos dos resistentes à ditadura comunista, que acusam a medida de ser proto-fascista. O resultado é o despedimento dos que se encontram a trabalhar na administração pública ou em organismos tutelados pelo estado ou a privação do exercício profissional. Nesta senda, os irmão maravilha aproveitam para por em xeque a idoneidade de personalidades, políticos e intelectuais que lhes são adversos, como aconteceu com o escritor/jornalista Ryszard Kapuscinki, que foi acusado de colaboracionismo com os serviços secretos, por nos ficheiros se encontrar uma declaração na qual este se comprometia a fornecer ao Estado polaco informações sobre os países que visitasse durante as suas deslocações de trabalho. Essa declaração era um pró-forma. Milhares delas foram assinadas pelos cidadãos polacos que se queriam deslocar a países capitalistas, quase à semelhança das declarações que durante o Estado Novo eram exigidas aos portugueses que queriam ingressar num qualquer trabalho na função pública, tendo para tal que declarem a repulsa às ideias comunistas.

Nem os desenhos animados escaparam, o Governo Polaco acusou a série de animação infantil da BBC, Os Teletubbies, de fomentarem a homossexualidade. Este mesmo Governo publicou uma lei que determina como justa causa para despedimento de um professor o facto de este ter “um estilo de vida homossexual”.

A Polónia é neste momento um país extremista, bem afastado dos valores de democracia e liberdade existentes na União Europeia. Constantemente dá ainda mostras do seu cariz nacionalista. Haverá em breve, resultado de uma crise política interna, novas eleições legislativas na Polónia, talvez delas saia um reforço da dupla terrível.
Perante isto tudo, porque é que a polónia tem lugar na UE? Troco pela Turquia.

2007/07/04

FRETILIN VENCE EM TIMOR


A FRETILIN venceu as eleições em Timor Leste. Tendo em conta a miserável campanha internacional contra o Governo Timorense, em especial a ingerência da Austrália nos negócios internos de Timor, foi um bom resultado.
Será difícil esperar respeito do actual Presidente pelos resultados alcançados pela FRETILIN. Não sei o que eles representarÃO em Timor, mas para mim significam que talvez ainda haja esperança para a jovem democracia timorense.

2007/06/23

Publico este texto por entender que o mesmo contém algumas reflexões que devem merecer atenção. O estado actual do desenvolvimento das sociedades capitalistas e as alternativas a construir, derrotados que foram os nodelos ensaiados durante o século XX, são um dos maiores desafios dos sectores progressistas actuais. O texto é da autoria de um amigo que recentemente visitou Cuba. Todos os contributos são válidos. Este é muito válido.



Como construir sociedades humanas mais justas?
A propósito de viagem a Cuba.

Em recente viagem a Cuba pareceu-me, pelo que vi, li e falei com habitantes, que o país resolveu no essencial e a nível considerável bom os problemas de educação e saúde, que são gratuitos para toda a população. Os crimes violentos são raros, havendo razoável segurança nas ruas, mesmo de noite.
A cidade de Habana tem 2,3 milhões de habitantes. O alojamento é encargo pequeno (até 5% do salário mensal) e as necessidades básicas de alimentação são asseguradas por uma quota alimentar (por pessoa) vendida a preço baixo.
Asseguradas as necessidades básicas da população (alojamento, alimentação, saúde e educação sendo estas a nível bom) não restam aos cubanos grandes recursos para outras despesas. São poucos os carros e, dos que há, um bom número tem 20 ou 30 anos. Apesar disso a frota de taxis parece suficiente. Muitas casas aparentam pelo exterior precisar de pintura e de reparação.
A impressão colhida é de sociedade remediada e fraterna com as necessidades básicas resolvidas a nível muito mediano, sem grandes desníveis. É grande o contraste com o que se conhece da generalidade dos países da América Latina, onde muitas crianças vivem ao abandono, há muita criminalidade violenta e a riqueza e a ostentação dos bairros das elites se exibe ao lado da flagrante miséria das favelas, dos morros, dos bairros de lata.


As dificuldades

Apesar dos Estados Unidos da América do Norte boicotarem quanto podem a economia cubana, o país resiste. A preocupação com a justiça social do regime político e a forte base ética assente na vida modesta dos dirigentes legitimam o regime aos olhos da maioria da população. Mesmo em períodos difíceis, como o que se seguiu a 1990 com o colapso dos países socialistas europeus, tendo o produto interno bruto caído então 35%, a unidade à volta dos dirigentes políticos não foi destruída. A direcção política soube dar resposta às graves dificuldades económicas, abrindo ao investimento estrangeiro com empresas em parceria com o Estado Cubano sendo metade do capital de cada parte e admitindo que a população crie pequenas empresas familiares que não contratem outros trabalhadores. A economia cubana retomou com essas medidas o crescimento, procurando a política cubana manter o princípio de não haver cubanos a comprar força de trabalho a outros cubanos. Por essa razão o regime não autoriza que as empresas de cubanos recorram a outro trabalho que não o familiar.

Maior flexibilidade

Esta restrição impede que os cubanos com maior iniciativa e criatividade impulsionem mais o desenvolvimento económico da sociedade. Estima-se que numa sociedade cerca de 10% da população tem boa capacidade de iniciativa, de criatividade e de gestão, enquanto percentagem semelhante, no extremo oposto, não tem capacidade para governar a sua vida e produzir para as suas necessidades precisando de receber apoio da sociedade. Os restantes, cerca de 80%, são normais trabalhadores, muitas vezes excelentes, desde que bem enquadrados em organização produtiva. Dificultar que num país os 10% da sua população com criatividade, capacidade de iniciativa e de gestão desenvolvam as suas capacidades em actividades diversas, nomeadamente económicas, desde que respeitadas regras básicas de justiça e equidade, faz diminuir a eficiência geral da sociedade em todos os campos, em especial no económico. A compra de força de trabalho e a consequente possibilidade de exploração económica, não pode ser erigida em tabu quando se pretende construir uma sociedade mais justa. Por medidas legislativas e outras é possível estabelecer normas e práticas que garantam os direitos dos trabalhadores e a observância da regra básica de justiça: a cada um segundo o seu trabalho, prestando-se o necessário e possível apoio aos que dele necessitam.




A separação, no fim da Segunda Grande Guerra, da Alemanha em dois Estados, um a República Democrática Alemã organizado segundo princípios tidos por socialistas, outro a Alemanha Federal segundo as regras do capitalismo, tornou claro que grande número de trabalhadores da República Democrática Alemã teria ido trabalhar para a Alemanha Federal, onde os salários eram mais elevados, se não tivessem sido estabelecidas barreiras intransponíveis na fronteira entre os dois Estados, incluindo na cidade de Berlim (o chamado muro de Berlim).
Impõe-se concluir que a média dos trabalhadores prefere ganhar mais, mesmo sendo explorada, do que, hipoteticamente não o sendo, ganhar menos.

As sociedades humanas são complexas

Há que reflectir se é possível com eficiência, num Estado, regular centralmente toda a vida social, cultural e económica como se tentou sem êxito na União Soviética e nos países do “socialismo real”.
Uma sociedade humana é demasiado complexa para poder ser entendida por uma parte de si mesma em termos de essa parte ser capaz de dirigir o seu evoluir e funcionamento sem contradições.
Até agora as sociedades humanas evoluíram de forma não dirigida. O seu progresso tem resultado de leis que no último século e neste se têm procurado determinar.
Mas estamos longe de conhecer todos os complexos mecanismos do funcionamento e do evoluir das sociedades humanas e provavelmente nunca se conhecerão completamente, não obstante o contínuo progresso nesse sentido.
É desejável que as sociedades evoluam sem roturas causadoras de grandes prejuízos e sofrimentos.
Não sendo possível determinar completamente o evoluir e o funcionamento das sociedades por desconhecimento da sua complexidade, a sua organização terá fundamentalmente que procurar facilitar os mecanismos de autocorrecção económica e social de maneira que as alterações se tendam a processar de modo gradual e imediato, ou quase imediato, com o mínimo de intervenção da autoridade pública e consequentemente sem roturas.
A autoridade pública terá que intervir fundamentalmente para, pela investigação, aprofundar o conhecimento das leis que regulam o funcionamento e o evoluir das sociedades e, na base desse conhecimento, aperfeiçoar continuamente os mecanismos sociais de autocorrecção. Só nos casos em que os mecanismos de autocorrecção não resolverem disfunções sociais e económicas é que se tornará preciso intervir para procurar resolvê-las e introduzir novos mecanismos de autocorrecção que, no futuro, solucionem o mesmo tipo de contradições.

Uma sociedade humana é assimilável a corpo humano vivo. À inteligência, que é a função superior do corpo, não compete regular cada uma das suas múltiplas e complexas funções, cujas leis a inteligência em grande parte desconhece. A função da inteligência em relação ao corpo é a de procurar resolver os problemas de funcionamento e desenvolvimento que os automatismos biológicos não são capazes de resolver. A inteligência de cada homem não se ocupa do funcionamento dos diferentes orgãos do corpo (coração, aparelho digestivo, pulmões, rins, glândulas, etc.). Se for necessária água no organismo, desencadear-se-á alarme da sede que vai obrigar a inteligência a perceber que tem que lhe ser fornecida água. O coração funciona sem que a inteligência se ocupe dele. Mas se surgem dores provenientes do seu deficiente funcionamento, a inteligência actua de modo a que haja intervenção (remédios, dieta, etc.).

O aceitável e o inaceitável

A compra por um indivíduo da força de trabalho de outro não é necessariamente fonte de injustiça inaceitável, se for regulada por normas e outras formas de controle capazes de assegurar o razoável equilíbrio das prestações mútuas.
O que não é aceitável é o imposto pelas grandes empresas transnacionais sob o comando do governo dos Estados Unidos da América do Norte: O neoliberalismo global está a tornar os países ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, e, nuns e noutros, os indivíduos ricos cada vez mais ricos enquanto a miséria, o crime, a insegurança e a poluição crescem.
Cuba está a procurar construir uma sociedade alternativa à dominante no mundo de hoje. São de saudar a sua vontade e a sua determinação. O caminho que está a seguir merece reflexão e eventualmente ajustamentos.


texto de João Almeida e Silva

2007/06/16

PALESTINA

"UMA GUERRA SÓ É UMA GUERRA, QUANDO UM IRMÃO MATA OUTRO IRMÃO"









Crise em Gaza estende-se à Cisjordânia

Os confrontos entre a Fatah e o Hamas, até agora circunscritos a Gaza, estenderam-se hoje à Cisjordânia, quando elementos armados da Fatah ocuparam o edifício do Parlamento, em Ramallah.
Os homens armados terão tentado, de acordo com os primeiros relatos que chegaram às agências noticiosas, raptar o vice-presidente do Conselho Legislativo Palestiniano, Hassan Khuraishah.De acordo com a AFP, porém, o porta-voz do Parlamento desmentiu a tentativa de rapto do vice-presidente da Assembleia.Estes confrontos acontecem depois de a Fatah ter sido empurrada para fora da Faixa de Gaza pelo Hamas, terminando uma semana de confrontos que fizeram mais de cem mortos.Um dos principais chefes de um grupo armado ligado à Fatah apelou hoje aos activistas do Hamas na Cisjordânia que deponham as armas e as entreguem à Autoridade Palestiniana, após o controlo da Faixa de Gaza pelo movimento islamista.A crise actualmente vivida no seio da liderança palestiniana conheceu nos últimos dias desenvolvimentos importantes, com a destituição do governo Hamas liderado por Ismail Haniyeh e a sua substituição por um independente que conta com o apoio ocidental, Salam Fayyad.
in Público, 16.06.2007

2007/05/09

A JANGADA DA MEDUSA

“A Jangada da Medusa" Instalação no Museu de Cera de Paris


Ontem, no Editorial do Público José Manuel Fernandes, relembra o episódio histórico da Jangada da Medusa para tecer o requiem da esquerda francesa. Claro que todos sabemos que no caso de JMF, as suas análises estão sempre enquistadas pelos seus desejos pessoais. Nos ditos populares todos sabemos que anunciar extemporaneamente a morte de alguém significa prolongar-lhe a vida. Logo, na sua ânsia de concretização de desejos pessoais, JMF acaba por ser contraproducente.
Passado o intróito que justifica a utilização da imagem da Jangada da Medusa, passemos à história, ela mesma.
Este episódio da história encheu de horror e repulsa a sociedade europeia no início do século XIX. A fragata real Medusa saiu de um porto francês nos primeiros dias de Junho de 1816. A sua viagem deveria conduzir os seus ilustres ocupantes à costa do Senegal.
A lista de ocupantes era composta pelo novo Governador do Senegal, a sua família, altas patentes militares, altos funcionários, mais de meia centena de cientistas, soldados e marinheiros. A lotação total era de cerca de 400 pessoas. O comando da embarcação de tão ilustre destacamento ficou a cargo de um Comandante, pouco experiente, que recebeu a responsabilidade por confiança e reconhecimento político. A inexperiência do Comandante, aliada à sua sobranceria, levou ao naufrágio ao largo das Canárias.
O processo da evacuação do navio foi marcado pelo egoísmo e por actos de brutalidade. O Governador, parte das patentes militares, as suas famílias e o próprio Comandante ocuparam os salva-vidas disponíveis e, prometendo voltar com ajuda que nunca chegou, deixaram para trás cerca de 150 pessoas. Eles próprios, nunca mais apareceram. A escassez de alimentos e água desencadearam uma feroz luta pela sobrevivência. Mas essa luta ultrapassava os limites da vantagem no controlo da água, do vinho ou dos víveres. A luta era pela posição ocupada na Jangada, improvisada e pouco estável, onde estes náufragos se encontravam. Os lugares foram ocupados de acordo com o “estatuto” dos náufragos. Os oficiais e cientistas instalaram-se no centro da mesma, os soldados e os marinheiros, entretanto desarmados, foram remetidos para as bordas, que facilmente ficavam submersas. Na primeira noite desapareceram da jangada 20 pessoas. Durante, um motim, os oficiais mataram mais 65.
Passada uma semana apenas cerca de 30 sobreviventes restavam na jangada. Aí foram seleccionados os que se encontravam em melhores condições físicas e escolhidos os que, ainda vivos, seriam lançados ao mar.
O canibalismo foi a prática que permitiu a sobrevivência dos 10 náufragos, que acabaram por ser resgatados. De entre estes apenas um não era cientista, funcionário público ou oficial. A luta pela sobrevivência vitimou sobretudo os que, na jangada, ocupavam os estratos sociais mais baixos.
O exemplo da Jangada da Medusa, tão diligentemente utilizado por JMF para ilustrar a situação da esquerda francesa, aplica-se melhor na ilustração das sociedades construídas sob os ditames do neo-liberalismo social e económico. A França reforçou este caminho. As Jangadas do Medusa multiplicar-se-ão.