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2008/08/08
2008/07/09
OS NEGÓCIOS DA CHINA


Mercado, socialismo e o crescimento chinês
"Há quem diga que a receita para o crescimento exponencial da China nos últimos 30 anos está mais nos elementos socialistas do seu modelo do que nos elementos mercantis. O herege, desta feita, é um professor universitário associado à 'nova esquerda' chinesa. Diz Cui Zhiyuan que a propriedade pública da terra, as empresas colectivas no mundo rural e o controlo estatal de empresas estratégicas têm sido centrais na estratégia chinesa. Eu acrescentaria o controlo dos movimentos de capitais - e não esqueceria a nada socialista repressão feroz dos movimentos sindicais. Por outro lado, não menosprezaria a importância do funcionamento dos mecanismos de mercado na afectação de grande parte dos bens e serviços. A ilusão das receitas do 'pós-consenso de Washington' (que se resumem quase sempre a «liberalizar, desregulamentar, privatizar», com preocupações sociais ou institucionais num ponto ou noutro) é que dificilmente sobrevive a esta história."
Neste contexto recomenda-se ainda o visionamento do documentário "A decent factory", realizado por Thomas Balmès, numa produção conjunta franco-filandesa, de 2004.
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China
2008/04/07
QUE A CHINA SE LIBERTE


Temos tido os dias animamos pela fuga da chama olímpica até Beijing. As imagens são degradantes, cidadãos tentam desesperadamente interromper os percurso da tocha que percorre as maiores cidades do mundo. Fazem-no por protesto contra a soberania da China sobre o território do Tibete. Os manifestantes acusam a ditadura chinesa de oprimir o povo tibetano e de violar e reprimir a sua herança cultural específica. Por cá deu mesmo entrada uma Petição sobre o tema na Assembleia da República.
Claro que falar hoje de herança cultural, não significará para ninguém o retorno ao Tibete de 1950. Nem sequer alguém se lança sobre a chama olímpica exigindo que no Tibete se restaure um Estado Feudal, onde a população se dividia entre servos, escravos e uma elite clerical ociosa e cruel. Nenhum dos manifestantes defende a reintrodução das punições tradicionais, que passavam pela amputação de membros e pelo cegamento. Talvez sejam poucos os manifestantes a reivindicar a restauração de uma Teocracia. Aquando da ocupação do território pelo exército popular chinês, o Tibete não tinha um estatuto internacionalmente reconhecido.A difusão das filosofias e religiões orientais no ocidente ajudaram a criar no imaginário ocidental a imagem de uma sociedade, de um povo e um tempo edílico, perfeito e harmonioso. Nada disso existia no Tibete.
Claro que falar hoje de herança cultural, não significará para ninguém o retorno ao Tibete de 1950. Nem sequer alguém se lança sobre a chama olímpica exigindo que no Tibete se restaure um Estado Feudal, onde a população se dividia entre servos, escravos e uma elite clerical ociosa e cruel. Nenhum dos manifestantes defende a reintrodução das punições tradicionais, que passavam pela amputação de membros e pelo cegamento. Talvez sejam poucos os manifestantes a reivindicar a restauração de uma Teocracia. Aquando da ocupação do território pelo exército popular chinês, o Tibete não tinha um estatuto internacionalmente reconhecido.A difusão das filosofias e religiões orientais no ocidente ajudaram a criar no imaginário ocidental a imagem de uma sociedade, de um povo e um tempo edílico, perfeito e harmonioso. Nada disso existia no Tibete.
Efectivamente, a soberania da China sobre o Tibete a partir de 1949 resultou numa extraordinária melhoria das condições materiais do povo tibetano. Essa melhoria implicou o desmantelamento de uma estrutura tradicional de poder exercido pelos monges organizados em mosteiros, que funcionavam à imagem das estruturas religiosas medievais da alta idade média na Europa. Cerca de 2% da população do Tibete pertencia a essa classe alta e mais 3% eram seus funcionários, encarregados, mordomos, gerentes das propriedades e oficiais dos exércitos privados. A ger-ba, uma minúscula elite de cerca de 200 famílias, governava no topo do sistema. Han Suyin escreveu: “Apenas 626 pessoas possuíam 93% de toda a terra e riqueza e 70% de todos os iaques do Tibete. Entre essas 626 pessoas estavam 333 dirigentes de mosteiros e responsáveis religiosos e 287 autoridades laicas (incluindo nobres do exército tibetano) e seis ministros do governo”.
Curiosamente, hoje a agenda em torno do Tibete faz-se com o recurso a conceitos completamente desconhecidos dos Tibetanos há 50 anos! Democracia, Direitos Humanos, Autodeterminação e Auto-governo conseguem ter eco no Tibete como resultado de 50 anos de secularização e consequente diminuição da influência das elites monásticas, modernização das estruturas socio-económicas e abertura ao ocidente por via da soberania chinesa. Talvez a China tenha já cumprido o seu papel histórico no Tibete. Seja qual for o futuro do Tibete, já não será o arcaico Tibete.
Neste ponto, a questão tibetana é acessória. Espanta-me que os protestos contra a China se tenham reduzido ao estatuto do Tibete. O próprio Dalai Lama não coloca a independência do Tibete em cima da mesa. Aflora o problema na sua dimensão cultural. Exige o respeito pelas tradições religiosas e culturais dos Budistas tibetanos. Essa mesma reivindicação pode ser alargada a muitas outras minorias culturais, religiosas e étnicas em toda a China. Mas espanta-me sobretudo porque a questão de fundo na China é o seu actual modelo de desenvolvimento económico e político. A China, malgrado a sua especificidade cultural, é hoje uma potência económica, que se organiza num modelo de Capitalismo de Estado num sistema político ademocrático. Os trabalhadores chineses não têm direitos sindicais, nem políticos. A economia chinesa não observa quaisquer padrões ambientais, sociais e políticos no seu modelo de desenvolvimento.
Esse modelo funesto, que muito tem aproveitado aos interesses económicos de “respeitadas e consideradas” multinacionais e de muitos Estados Ocidentais é que deveria ser alvo de contestação por parte dos cidadãos europeus. O trabalho feito pelos trabalhadores chineses, sem quaisquer garantias sociais e materiais, não aproveita a esses trabalhadores, nem aos trabalhadores das sociedades socialmente mais justas. Sobre estes recai a constante pressão da concorrência desleal e das deslocalizações de empresas e actividades produtivas.Se se pode ter tempo de antena sobre a China, que se aproveite esse espaço para exigir reformas socais e económicas, não as capitalistas, que mais não visam que uma porta aberta na China para a exploração de mão-de-obra barata, mas as que assegurem uma elevação dos padrões sociais e económicos dos trabalhadores chineses e a conquista de direitos cívicos, políticos e sindicais.Relevante seria que a China se libertasse e logo se libertaria o Tibete!
Actualização
“Vários membros do Comité Olímpico Internacional (COI) estão insatisfeitos com os recentes acontecimentos relacionados com a passagem da tocha por Londres e Paris. Dizem que a imagem do movimento olímpico saiu prejudicada, podendo acabar por decidir a suspensão da estafeta internacional da tocha.”
Independentemente das razões dos manifestantes e das questões relativas à China, o JO são uma manifestação desportiva mundial, não se reduzindo ao país que os acolhe. Se o COI decidir no sentido indicado pela notícia, contribuirá para a redução do espírito olímpico à política no pior que ela tem. Os protestos não são contra os JO. Os protestos são contra a política chinesa no Tibete, facto em si bastante redutor do problema chinês. Com tanto ruído, no fim não ganhará nada o Tibete, perderá o espírito olímpico, perderão os chineses e continuarão a ganhar as multinacionais e os seus estados associados. O endurecimento da política chinesa aproveitará aos mesmos de sempre. O Comité Olímpico Internacional dever-se-ia colocar acima dos protestos, valorizando os JO e os seus objectivos enquanto momento de concórdia, diálogo e paz.
“Vários membros do Comité Olímpico Internacional (COI) estão insatisfeitos com os recentes acontecimentos relacionados com a passagem da tocha por Londres e Paris. Dizem que a imagem do movimento olímpico saiu prejudicada, podendo acabar por decidir a suspensão da estafeta internacional da tocha.”
Independentemente das razões dos manifestantes e das questões relativas à China, o JO são uma manifestação desportiva mundial, não se reduzindo ao país que os acolhe. Se o COI decidir no sentido indicado pela notícia, contribuirá para a redução do espírito olímpico à política no pior que ela tem. Os protestos não são contra os JO. Os protestos são contra a política chinesa no Tibete, facto em si bastante redutor do problema chinês. Com tanto ruído, no fim não ganhará nada o Tibete, perderá o espírito olímpico, perderão os chineses e continuarão a ganhar as multinacionais e os seus estados associados. O endurecimento da política chinesa aproveitará aos mesmos de sempre. O Comité Olímpico Internacional dever-se-ia colocar acima dos protestos, valorizando os JO e os seus objectivos enquanto momento de concórdia, diálogo e paz.
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China,
Jogos Olímpicos
2007/08/10
CAPITAL, CAPITALISMO, LIBERALISMO


Henrique Raposo, escreve no Blogue Atlântico uma pequena dissertação, a propósito do que se vai passando na China, sobre o capitalismo e a sua relação directa com o liberalismo político.
“O jornal diz “China está a dar-se bem com o capitalismo”. Pois. O problema é que se dá mal com o liberalismo, que é outra coisa bem diferente. Ainda hoje, muita gente, mesmo alguns que pensam que são liberais, continuam a seguir a falácia de Marx, isto é, transformam o capitalismo num sinónimo de liberalismo. Erro. Dos grandes. Daqueles mentiras que se tornam verdade pela repetição." (É bastante curioso este comentário, na medida em que Marx nunca estabeleceu essa relação inexorável entre o Capitalismo e o Liberalismo Político. Aliás, umas das maiores falácias modernas é o sinónimo que se estabelece entre Mercado e Democracia propagandeado pelas correntes do Liberalismo Económico e do Neo-liberalismo. O Capitalismo sempre se deu bem com quase todos os modelos políticos, desde que estes não interferissem com os fundamentos da sua lógica intrínseca da acumulação. Deu-se bem com as ditaduras da América Latina, com as ditaduras na Europa Ocidental durante o século XX, com as guerras pelos recursos naturais e com a lógica geral da guerra, com as violações dos direitos humanos, ambientais e sociais, até convive bem com a democracia formal e dá-se bem com o sistema chinês onde um estado autoritário lhe garante a estabilidade necessária para a realização dos seus negócios.)
"Pode haver capitalismo sem liberalismo. Como na China e noutras partes da Ásia. E, aliás, esse é um dos perigos de hoje: há estados que acumulam riqueza pela via capitalista, mas que não são transparentes política e estrategicamente porque não são liberais." (A natureza não democrática desses estados é uma panaceia para os interesses capitalistas, onde não existem sindicatos organizados, onde é reprimida a actividade das correntes políticas democráticas, onde é mais fácil subornar para obter vantagens, onde a ética não é um entrave porque nem sequer é exigida. O Capitalismo dá-se efectivamente mal é com uma democracia completa, com uma democracia económica, social e cultural, com preocupações ambientais, onde a economia se sujeita aos interesses dos cidadãos. Esse é o único ambiente hostil ao Capitalismo.)
"E em relação à china até se pode dizer outra coisa: ser-se aberto ao capital não é o mesmo que ser-se capitalista. Capital é guito; capitalismo é um conjunto de regras processuais. E essas regras ainda não existem na China. A China também não é capitalista. É, aliás, uma potência mercantilista que se está a aproveitar do sistema económico global ainda relativamente aberto." (È justa esta distinção entre Capital e Capitalismo. Capitalista é uma sociedade que está sujeita aos interesses do Capital, e onde, se necessário for, o Mercado é apresentado como sinónimo de Democracia, apenas porque isso criará melhores condições de aceitação dos interesses do Capital. Mas só por isso! No texto de Henrique Raposo a distinção entre Capital e Capitalismo é feito como se o segundo fosse o primeiro com ética. Mas qual?)
2007/08/08
2007/03/05
O DRAGÃO

Começa hoje em Pequim o Congresso Nacional do Povo. Este é o maior Parlamento do mundo com cerca de 3000 delegados. Independentemente de todas as considerações e opiniões sobre a China, o seu modelo económico, político e social, este facto merece referência. Não só se reúne o maior Parlamento do mundo, como se reúne o Parlamento do país mais populoso do mundo. A China mantém-se para a maioria como algo longínquo. Como uma realidade lendária e distante. Porém, o mundo recentra-se e a China vai ocupando o seu lugar central nos novos equilíbrios mundiais. Em 2005 a população estimada da China era de 1,306,313,812 hab. . A partir de hoje e durante cerca de 10 dias os representantes de 1/6 da população mundial debaterão e decidirão o seu futuro próximo. E creio bem que não erro se disser que decidirão também o nosso.

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