Mostrar mensagens com a etiqueta Abril. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Abril. Mostrar todas as mensagens

2008/06/10

2008/04/27

SERVIÇO DE MALAPOSTA


Sacavém, 26 de Abril, 2008


Digníssimo Marquês

Há muito tempo que vou tendo notícias dos assombros e outros espantos que têm lugar nos salões do vosso Palácio. Vou lendo as vossas narrativas e com elas tomo conhecimento dos feitos daqueles que governam os lugares onde outrora vivemos.
De todos os descritos, causa-me mais espanto o Presidente da Câmara, detentor do cargo que já fora ocupado vosso filho Duarte Borges Coutinho de Medeiros Sousa Dias da Câmara, 2º Marquês da Praia e de Monforte.
Já era do meu conhecimento, o esforço feito pelo Presidente da Câmara Municipal para dar a conhecer a todos os municípes o calendário festivo da sua família. Em vários momentos, sejam solenes ou não, vamos amíude conhecendo as datas de aniversário de toda a família, do Presidente, do irmão, da mulher, do neto, da filha e dos pais.

Não posso discordar de vós, quando afirma que essas revelações pouco ou nada contribuem para aquilo que se espera que seja o discurso de um Presidente de Câmara. Percebo contudo o objectivo. Simular proximidade aos eleitores, sobretudo aos mais velhos, que podem não ver a Câmara Municipal empenhada na construção dos Centros de Dia, ou até desconhecer, aqueles que são proprietários de uma habitação, que se vão pagar mais de IMI, isso se deve àquele simpático senhor, que o município pouco se tem empenhado no processo de construção do Hospital de Loures e que tem sido conivente com o encerramento de serviços de saúde no concelho, tão importantes para os mais idosos, mas podem vir a saber que ainda na semana passada o malandreco do neto lhe sujou uma gravata com a papa.
Este apanágio do Presidente, cumpre dois objectivos meu caro, entreter e distrair. Entretem como o fazem as novelas de hoje e distrai do que é essencial, que são as suas responsabilidades em muitos dos retrocessos que se verificam nestes lugares de Loures.
Na passada sexta-feira, dia em que se assinalou o 34 aniversário da Revolução, almoçou o Presidente de Câmara nos meus jardins. Mais uma vez, discursando perante o povo desfiou banalidades. Porém, acrecentou uma novidade. Explicou aos presentes como se posicionava politicamente e porquê. O Presidente revelou que também ele era um filho de Abril. Porque partilhava dos valores? Porque defendia aquilo ou aqueloutro? Não, caro Marquês. Porque os seus pais fazem ambos anos no mês de Abril!
Coisas incríveis se ouvem nos tempos modernos!

Respeitosamente;


Maria Henriqueta Branco de Menezes
Baronesa de Pomarinho

NA CASA DO VIZINHO X




Muito se tem falado do alheamento das novas gerações em relação aos valores da cidadania. Isso é bem verdade. Em vez de divagar sobre o tema, o Palácio optou por chamar ao seu salão nobre o texto de uma jovem de Loures. O texto pode ser encontrado também aqui.




"Na passada sexta-feira, Portugal comemorou 34 anos de Liberdade. 34 anos volvidos, todos questionam a verdadeira importância da Revolução dos Cravos: um grito de liberdade? Uma revolução? Um ponto de viragem na História de Portugal? O símbolo da revolta contra o regime ditatorial? Um momento de união em torno da defesa dos direitos do Homem?
34 anos depois, há quem não saiba o que foi o 25 de Abril. 34 anos depois, há quem nem saiba o nome do primeiro-ministro. 34 anos depois, há também quem não vote. 34 anos depois, há até quem diga que “isto era melhor era no tempo de Salazar”, mesmo que não tenha conhecido esse “tempo”. 34 anos depois, Portugal vive mergulhado na agradável e fácil desinformação política, vidrado nas montras dos centros comerciais. Afinal, qual é a cor da liberdade?

Para nós, jovens, a liberdade sempre foi mais do que um sonho. Encaramo-la como um gene que trazemos desde que sentimos o Mundo, pela primeira vez. Não é nada que possamos perder, como o dinheiro e, talvez por isso, para muitos o dinheiro é mais importante. A liberdade não compra nada, o dinheiro pode ser trocado por telemóveis, computadores ou PDA. Os pais, em casa, dizem aos filhos que o dinheiro custa a ganhar… E a Liberdade, quanto lhes custou a Liberdade? Custou vidas, custou sonhos, custou casamentos, ambições. A Liberdade custou fugas, desencontros; custou palavras em silêncio. A Liberdade custou dores, gemidos, humilhações públicas.
Foi pela Liberdade que muitos filhos ficaram órfãos, muitas mulheres ficaram viúvas.
Foi pela Liberdade que nasceram heróis, de palavras tímidas, mas convictas, que faziam das lutas poesia cantada.

No dia 25 de Abril de 1974, todos os heróis saíram às ruas, convidaram o povo a cantar, com eles, Grândola, Vila Morena, abriram as portas das casas e dos corações à Liberdade, distribuíram conforto, paz, segurança, felicidade e direitos, um pouco por todo o País.
Graças a eles, hoje, todos os partidos políticos são legais, a saúde e o ensino são acessíveis a todos, há um ordenado mínimo nacional, que garante que todos tenham as “condições mínimas de vida”. Graças a eles, hoje, podemos manifestar-nos, podemos reivindicar os nossos direitos.
No entanto, parece que aquela sede de mudança inicial, assim que satisfeita, esfumou-se, ficou reduzida a umas quantas leis e a um saudosismo que tem expressão apenas quando há eventos comemorativos do 25 de Abril. Porquê?
Porque as pessoas foram fortemente modeladas pelo regime repressivo, estavam educadas para se comportarem segundo modelos rígidos que lhes impunham parâmetros. De repente, Portugal era livre, o seu povo era livre. A Liberdade foi encarnada, a Liberdade era o mito de sermos donos de nós mesmos, o que, legitimamente, nos levava a comportarmo-nos como donos de nós mesmos. Mas, não, a Liberdade é um conceito da democracia e da cidadania que não nos foi, nunca, ensinado.
Liberdade, para a maioria das pessoas, passou dum conceito vago, abstracto e utópico, para palavra de ordem, num só dia.

Como a Liberdade, certamente confundida com libertinagem, deu origem a uns quantos problemas de vizinhança, imediatamente a seguir ao 25 de Abril, nós, portugueses, como bons “desistidores” que somos, demitimo-nos do nosso papel de cidadãos. E, ainda hoje, adoramos dizer que “isso de política não é connosco”, é, claro está, com aqueles que se sentam nas cadeiras do Parlamento. A parte deles serem eleitos por todos nós fica com cada um, que é essa a única razão para o voto ser secreto.
É por isso que, 34 anos depois, se ouve questionar a importância do Dia D. É, aliás, por “dois issos”: o primeiro “isso” é o próprio 25 de Abril porque, antes dele, não nos era permitido questionar nada; o segundo “isso” é a falta de educação política/para a cidadania.
Levantemos, então, a cabeça e lutemos, sem armas, para repor a Liberdade como o centro, o motor da Democracia. Exerçamos os nossos direitos, cumpramos os nossos deveres.

É necessário, de igual forma, que o Estado seja capaz de encarar esta situação de hibernação política profunda como um ponto de viragem. Assim, cabe, não só às famílias fomentar a opinião crítica em relação aos problemas da actualidade, mas também à Escola e aos órgãos de comunicação social, na medida em que são transmissores de informação e valores sociais.

A Liberdade tem a cor dos nossos olhos, tem a força das nossas mãos e há-de ter asas, se nós quisermos voar."

Cátia Terrinca


2008/04/26

CANÇÕES DE ABRIL A MAIO (3)






A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vem cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Sérgio Godinho

POETAS DE ABRIL A MAIO (1)




Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
"Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade"



Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinqüenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raíz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerra de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena, 1974
Imagem retirada daqui.

2008/04/23

SEMENTES



Vivo num país de mar.
De alecrim.
De sementes.



E às vezes esqueço-me. Do mar, do alecrim, das sementes. Parece-me que as sementes não nascem. Que o alecrim perdeu o cheiro. E que o mar é só água.
Não me apetece ler, não me apetece escrever.


Mas depois acontecem pequenas coisas, pequenos gestos, pequenas brisas, que me fazem reagir. Sentir que afinal o mar é uma larga estrada, que o alecrim, junto com o cheiro dos cravos, faz explodir as sementes que teimam em romper a terra.
Foi o que me aconteceu hoje.

Fui visitar uma amiga a uma escola. Grande, de muita gente. E no bar da sala dos professores, estava a Elsinha. Minha conhecida desde há alguns anos. Serviu-me um café, acompanhado de um abraço apertado. Com dificuldade cortou o croissant e disse "OH M.. está tudo bom?" Estava optimo.


Porque me fez lembrar que estamos em Abril e que foi um mês como este que permitiu que a escola dos outros fosse também a dela.
A Elsinha tem Trissomia XXI e está a aprender a ser grande.

“SE NÃO SOUBERES, COPIA”



No seu livro “Como se faz uma tese” Umberto Eco, após explicar os caminhos metodológicos necessários à realização de uma investigação social e à condensação desses conhecimentos numa tese, aconselha no final, com grande dose de humor, que mesmo após a observação dos princípios enunciados, aqueles que não se encontrem capazes para tal empreendimento, devem procurar a biblioteca de uma universidade remota, escolher uma tese desconhecida e copiá-la. O conselho visava salvaguardar aqueles que posteriormente teriam de ler o trabalho realizado. Assim, não só se pouparia o plagiador de árduos trabalhos, como se poupariam os leitores à leitura de trabalhos medíocres.
Este conselho foi ontem seguido pelo porta-voz do PS na Assembleia Municipal de Loures, Tiago Abade. Perante a dificuldade de empinar meia dúzia de ideias para uma intervenção para a Sessão Solene sobre o 25 de Abril, cingiu-se à leitura integral de um texto de Eduardo Prado Coelho.
Deste modo alcançou os dois objectivos propostos por Umberto Eco. Poupou-se ao trabalho, que mesmo que o tivesse, resultaria numa intervenção um pouco aquém do sofrível, brindando a Assembleia com um momento de boa literatura. Quando digo que se poupou ao trabalho, é bem verdade. Esta intervenção, fiz as contas, demorou 2 minutos de 37 segundos a ser feita. Este tempo incluía pesquisa simples no Google com as palavras “Prado Coelho 25 Abril”. O motor de busca fornece-nos o texto logo na quinta entrada, no sítio do Centro de Documentação da Universidade de Coimbra. Copiar e colar em 5 segundos, e pouco mais para a formatação do texto. A impressão a laser é um tirinho e já está.
No contexto, conseguiu ainda, apesar das discordâncias possíveis face ao conteúdo, por proferir a melhor intervenção do PS neste mandato. Claro está que se do ponto de vista literário a escolha foi boa, o conteúdo político pautou-se pela vacuidade. Mas não se pode ter tudo e vale mais ser assim!
Espero que este momento tenha sido a inauguração de um novo estilo de intervenção do PS.

Cá vai o texto, que merece ser lido.


Já foi há 25 anos

“Sabes que houve uma primeira vez que eu tentei explicar o 25 de Abril, e que foi um verdadeiro fiasco? Estávamos ainda em plena efervescência, naquela espécie de Maio de 68 dilatado, passado e repassado em câmara lenta às vezes exasperante, outras vezes contagiante e comovedor, e, sabe Deus porquê, os senhores da embaixada da Bulgária acharam que eu devia lá ir escolher filmes para uma semana de cinema búlgaro, que se passou ali no Apoio 70. Escolhi para abertura do Festival um filme feito por estudantes, alunos de uma escola de cinema, sobre uns jovens que roubavam carteiras nas ruas de Sófia, e aquilo nem caiu muito bem em termos oficiais, mas era do mais fresco e saudável que por lá vi. E na Bulgária deram-me uma guia, que era filha de um cineasta, que lia Freud às escondidas na biblioteca da Alliance Française, e a quem deixei os romances de Pierre Jean Jouve que levava comigo, e ela queria saber o que era o 25 de Abril e eu explicava com o entusiasmo de quem supunha (ou supunha que supunha...) que estava a inventar uma coisa inteiramente nova, que tínhamos começado a construir uma alternativa ao capitalismo, que no entanto não tinha aquele ar de pesadelo totalitário em que se tinham transformado os países de Leste, e ela a parte final até entendia, entenderia até melhor que eu, mas o principio suscitava-lhe engulhos, e de repente quase gritou para mim: «Mas o que é que vocês têm contra o capitalismo?...

Aí percebi que estas evidências nunca são inteiramente partilhadas, são evidências para quem acredita nelas, são violências para quem não acredita, e no fundo de nós próprios o enraizamento das crenças é algo de inexplicável. E comecei com ela tudo do princípio. Mas isso não me impede de dizer, e gostar imenso de que tu o entendas por dentro: "O 25 de Abril foi um dos mais belos momentos da minha vida, e o 1 de Maio um dia glorioso, como diz o Pessoa ao escrever os poemas de Alberto Caeiro" 0 que é extremamente difícil de contar, e isso tem a ver com o facto de tudo aparecer em mim mais como poema do que como narrativa, isto é, como uma sobreposição de imagens que se arrancam ao tempo normal, e que criam um contra-tempo, isto é, um tempo que resiste ao tempo normal e procura uma outra forma de ordenar as paisagens, os gestos, as palavras, etc.

Eu sabia que havia coisas que se estavam a preparar, alguns amigos (lembro-me de conversas com o Fernando Lopes) mantinham-me informado, pressentia que um tempo chegara ao seu termo, e no entanto isso aparecia como a mais improvável das probabilidades. Encontrava-me no Monte Carlo que já não existe, mas onde durante anos almocei dias a fio, ou então no Vavá, que existe mas reduzido ao fantasma de si próprio, e aí recolhia informações, trocava opiniões, avaliava hipóteses, e depois contava ao meu pai, mas ele tinha um cepticismo causticado, já vira muito e não queria acreditar demasiado. Mesmo depois de eu lhe ter levado o livro de Spínola.

Até que um dia, acordei, levantei-me, liguei o rádio como fazia sempre, e no momento em que passava a água pelos olhos para despertar melhor (é importante, para mim claro, dizer que foi neste momento, não é que isto simbolize o que quer que seja, mas é uma espécie de presilha da memória ao real, a coincidência mágica entre a água nos olhos e a ideia de revolução), ouço aquela fórmula mágica: «Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas» (dois poetas mais tarde falariam nas «forças armadas», num desvio hábil e homenageante de algo que durante meses dominou as nossas vidas), e então chamei a R. e disse: «é agora, começou tudo, ouve» - e ouvimos, e decidimos logo ir chamar os vizinhos amados amigos e sair para a rua e ir ver o que se passava - porque duma coisa estávamos certos, a de que era impossível ficarmos parados. E fomos - dum lado, havia o José António e a Hélia, doutro a Maria Alzira e o Manuel Alberto.

Chama-se a isto uma emoção estética - algo que é preciso partilhar o mais depressa possível, algo que é preciso dizer aos outros: não podes perder. Por isso repito - eu posso comprar-te todos os livros e cronologias sobre o assunto, o belíssimo álbum que o Boaventura de Sousa Santos nos forneceu, os textos de análise do António Reis ou do Medeiros Ferreira, tudo o que quiseres, mas se tu não sentires o 25 de Abril como este momento de poesia pura (o dia em que o real é a poesia absoluta), então não entendes nada de coisa nenhuma, e o melhor é desistires. É isso que torna difícil transmitir uma memória: há uma forma de o vivido nos tatuar o corpo que nada pode apagar. É, se quiseres, o paradigma da festa.

Aliás, se pegares no último romance do Helder Macedo, Pedro e Paula, verificas que é um romance sobre o 25 de Abril, porque é um romance sobre o antes e o depois, mas que naquilo que devia ser o 25 de Abril em si mesmo, temos o título do capítulo, «Festa é festa,,, a data, 1974, e a seguir linhas sem palavras, até que na página seguinte, se conclui com esta frase: «Mas festa é festa, e essa já ninguém nos tira». 0 que gosto neste «já ninguém» é que ele engloba Deus, sobretudo se nos lembrarmos daquelas discussões medievais sobre se uma rapariga que tivesse sido objecto de violação poderia deixar de o ter sido por vontade de Deus, ou se o que aconteceu se sobrepõe à omnipotência divina. E esse é o sentido radicalmente revolucionário de quando se diz de algo que foi para nós uma verdadeira festa que "esta já ninguém me tira," - nem Deus, se o quisesse, porque fui eu que o vivi. E portanto fui eu que vivi o 25 de Abril, fui eu que saí com a R., a Hélia e o Zé Antônio e fomos de carro para os lados do Carmo, ver o que se passava, e andámos em marcha atrás alucinada para fugir aos movimentos descontrolados de massas por alguns disparas desgarrados, o encontrarmos as caminhos mais adequados àquilo que pretendíamos: viver a História no momento em que ela é ainda a «nossa história».

Depois, foi à noite olhar a televisão e descobrirmos, entre alguma admiração e alguma desconfiança, o rosto dos "nossos" libertadores. Mas foi sobretudo o espanto de vermos como tudo o que parecia inabalável estava corroído por dentro, como as tropas não tinham alma para lutar em defesa de uma ditadura visceralmente minada, como a democracia era (às vezes demasiado depressa) uma «evidência», e como o MFA nos aparecia, nas suas múltiplas faces e contradições, como a total inversão do que pensávamos: afinal as Forças Armadas podem ser democráticas, podem mesmo ser de esquerda, podem mesmo ser ingenuamente de extrema-esquerda, e durante alguns meses vão desempenhar o papel do sujeito-suposto-saber, isto é, do pólo de todas as transferências, do lugar de todas as utopias, eles chegam e a situação resolve-se, nomeia-se um MFA e a democracia assegura-se...

No dia seguinte, entrada orgulhosa e feliz no espaço da Faculdade de Letras, e foram dias de uma fraternidade real, da cumplicidade interminável entre os amigos que se encontravam e a quem nos abraçávamos, mas também os sorrisos na rua. A felicidade partilhada, a alegria comum, na certeza já de que tudo o que de absoluto se vive é a coisa mais frágil deste mundo, e irá fender-se como uma porcelana no próprio momento em que ainda a julgo viver inteira. Mas não tem importância, essa já ninguém nos tira - nem Deuses, nem Reis, nem o ditador que caiu da cadeira, nem o pai precário das conversas em família... Na Faculdade, enfrentamos os primeiros choques entre os impacientes, que querem desde já tudo mais e mais, e os «realistas» , entre os quais me situo de imediato por uma espécie de instinto, para quem o essencial é continuar a viver esta quimérica unidade do povo em festa.

Mas afinal que foi o 25 de Abril? Perguntarás. Foram tantas coisas ao mesmo tempo. Foi o fim da guerra colonial, - embora o início de um processo de descolonização confuso, atribulado e sangrento. Foi a reconquista da democracia mínima, como diria Norberto Bobbio, e a rodagem dos seus novos mecanismos, e com isso a recusa feroz de qualquer nova forma de censura, de todos os processos de opressão, de todas as polícias sem controle, de tudo o que de perto ou de longe evocasse o tempo salazarento em que os discursos do "velho abutre" tinham o dom de tornar «as almas mais pequenas» (para glosar um poema de Sophia de Mello Breyner). E foi a entrada num tempo em que "as almas se sentiam maiores". 0 Partido Comunista procurava reeditar os processos de conquista de poder que tinham funcionado noutros tempos e noutros lugares: multiplicando-se em duplos mais ou menos exangues, e empurrando as alternativas reais para o espaço da não-democracia. 0 PS, procurou resistir, mesmo que para tal se aliasse aos esquerdismos mais descabelados. E lembro-me como todos os partidos, do CDS ao PPD, entravam na gramática da revolução: no fim do Campo Grande, alguém havia escrito que «Só a social-democracia é revolucionária». Uns sonhavam com uma inserção na lógica terceiro-mundista - era esta a alternativa dos militares mais ideologicamente formados (entre os quais o mais notável foi sem dúvida Meio Antunes, o mais corajoso sem dúvida Otelo, o mais inteligente e hábil sem dúvida Costa Gomes, e o mais ingénuo e exaltado Vasco Gonçalves). Outros iriam desde logo apostar na carta europeia - foi essa a genial intuição de Soares.

Contudo, o essencial do 25 de Abril, aquilo que faz que para uns se trata de uma data que os faz (nos faz) estremecer de emoção, hoje, ainda e sempre, e que para outros o importante é o que 'se instalou depois, e a data evoca apenas os excessos, as confusões, a batalha quotidiana por uma verdade incerta e inacessível, a violência das exclusões, dos saneamentos ou das fugas apressadas para o Brasil, o essencial do 25 de Abril, repito, é que se trata de um momento revolucionário (e não de uma revolução, como o PCP terá imaginado, ao querer copiar um desses regimes que hoje reconhecem ter sido de repressão e crime organizado e domínio boçal e baço das burocracias). E o que é um momento revolucionário?

É talvez aquilo que provavelmente só a nossa geração sabe ainda reconhecer em toda a sua pureza: é quando, movidos pelo desejo de outra coisa, ou melhor, de uma coisa sempre outra, vamos um pouco à frente de nós próprios, suspensos de desejo e não-saber, capazes do melhor (e por vezes do pior), num crescer de alma em que tudo converge, moral e estética, política e conhecimento, numa bola de fogo e exaltação, mitologia romântica, se quiserem, ou transcendência da história, ou ruptura das métricas do tempo, e andámos aos tiros aos relógios de uma cidade para inventarmos as cidades futuras - fique embora mais curta a nossa vida. Não te digo mais nada - dou-te as mãos, e a emoção contagia-nos de novo, como se o mundo começasse hoje aqui e agora, ou, como escreveu Samuel Beckett, «moi seul suis homme et tout le reste, divin,,.

A grande questão é sabermos se isto se transmite, ou melhor, se isto hoje, mesmo como simples menção estética, ou confinada à estética, faz ainda sentido. Não estou certo. 0 que nós vemos à nossa volta é tão obviamente diferente. Terá sido um momento da História que desapareceu para sempre? Irá regressar na curva de um ciclo ideológico cuja constituição não sabemos equacionar? Mas as diferenças saltam aos olhos: quando os estudantes antes do 25 de Abril vinham para a rua ser perseguidos e presos pela polícia, então queriam, acima de tudo, um tempo de liberdade. Quando,, já em democracia, passaram dias, semanas, meses, a inventarem novas formas de relação com o saber, novas modalidades da relação de ensino, novos esquemas de poder, autoridade e participação, era a ideia de que a felicidade poderia ser uma ideia nova na Europa. Quando hoje se manifestam pela questão das propinas, não têm nenhum mundo por detrás, nenhum incêndio por dentro das palavras, nenhum poema oculto ou murmurado, mas apenas a irreverência adolescente e a demagogia manipulada, e é por isso que depois são sages e conformes, conservadores e bem comportados, lisos e performantes, liberais e neoliberais...

Mas todos sabemos como nada se repete. Estamos no princípio de um século, e do que se passa aos nossos olhos fica apenas o cansaço de um século que se escreveu e despudoradamente se desescreveu e nos deixou agora perante o ilegível da História, sem sabermos se isto é o fim, ou o princípio de tudo.

Sobretudo desse tudo que a nossa geração não chegará já a ver, nem mesmo a conhecer, nem mesmo a nomear, mas que eu gostaria que pairasse, como um fio de luz no crepúsculo, no momento em que te começo a contar como foi, há vinte e quatro anos já, o nosso 25 de Abril, e digo: tu sabes, e nas minhas palavras, por instantes, tu és o 25 de Abril que foi.”

O texto de Eduardo Prado Coelho foi publicado na DNA em 1998.
O título do post é o título do livro de poesia de Fernando Tordo, editado no ano passado.

CANÇÕES DE ABRIL A MAIO (2)






2008/04/19

CANÇÕES DE ABRIL A MAIO (1)





Bom dia!
Acordai
Acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz
Acordai
Acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
Acordai
Acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

O poema é da autoria de José Gomes Ferreira, sendo musicado por Fernando Lopes Graça.

2008/04/10

ABRIL




Apesar do SILÊNCIO


-não me apetece escrever -


não me esqueço que é




ABRIL

2007/08/06

VALE MAIS TARDE DO QUE NUNCA!



No passado dia 4 de Julho assinalou-se o sexagésimo segundo aniversário do assassinato de Alfredo Dinis (Alex), numa estrada rural da Freguesia de Bucelas, no Concelho de Loures. O local exacto deste infame acto perpetrado pela PIDE, encontra-se assinalado por um humilde memorial em pedra, que a cada ano que passa, resvala mais um pouco pelo talude que o suporta. Também anualmente, uma visita ao local recorda esse episódio da resistência comunista à ditadura fascista.

“Este dirigente comunista Alfredo Diniz, circulava, na sua bicicleta, pela estrada de Bucelas, a caminho de um encontro. Escondido atrás de uma furgoneta, o bando de assassinos da PIDE, chefiado por José Gonçalves, esperava-o. Um dos criminosos saltou de surpresa e com um empurrão fê-lo cair na berma da estrada. Os outros cercaram-no. Um tiro matou-o."



ALGUNS DADOS BIOGRÁFICOS DO CAMARADA ALFREDO DINIS – "ALEX"

“Operário metalúrgico. Em 1936, com 19 anos aderiu às Juventudes Comunistas. Ainda nesse ano tornou-se membro do Socorro Vermelho. Em 1938 (Agosto) foi preso tendo sido condenado a 19 meses de prisão. Foi responsável (1941) pela Célula da Parry & Son e pelo Comité Local de Almada do Partido. Em 1942 sendo responsável pela organização local, foi um dos impulsionadores das greves que tiveram lugar na região de Lisboa. Em 1943 é membro do Comité Regional de Lisboa, tendo sido um dos impulsionadores das grandes greves desse ano. Nesse mesmo ano, no III Congresso, é eleito para o Comité Central. Em 1944 foi igualmente um grande impulsionador das Grandes Greves de 8 e 9 de Maio, tendo feito parte do Comité Organizador das greves. Em 1945 pouco antes de ser assassinado, foi eleito para a Comissão Política.”

2007/08/03

NOUTRO MUNDO


“Documento único e extraordinário sobre a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril. A 23 de Abril de 1975, cinco semanas depois do 11 de Março e dois dias antes do aniversário da revolução dos cravos, ex-trabalhadores agrícolas, prisioneiros políticos libertados e rufias invadem a herdade, propriedade do duque de Lafões, numa acção rara por decorrer no Ribatejo (quando a maioria das ocupações se passavam no Alentejo e o Ribatejo permanecia refúgio da Direita). Realizado por Thomas Harlan e produzido por Paulo Branco, é um acutilante olhar político sobre uma época, uma utopia e as suas contradições.” O documentário, visto hoje remete-nos para um tempo quase irreal. A pouco mais de 30 anos, parece que vemos algo quase fora de contexto cultural, quase fora de tempo. Está em exibição.

2007/04/19

NÃO HAVIA NECESSIDADE!


Haverá seguramente uma explicação para o sucedido. Não duvido. Mas será uma explicação plausível? Eu gostava de ter essa explicação. Creio bem, que muita gente merece uma explicação. O DN publica hoje uma notícia, e dela faz despropositadamente primeira página, que relata o veto dos representantes de estruturas comunistas e ecologista ao nome de Ricardo Araújo Pereira, para que este fosse o leitor da mensagem aos jovens no final do Desfile do 25 de Abril.
A mim parece-me uma excelente escolha. Passa-se o tempo a carpir o afastamento da geração pós-25 de Abril aos valores e à memória da revolução, facto verdadeiro. Existe unanimidade que esse é um problema a que urge dar atenção. Ensaia-se continuamente novos modos de abordagem à geração que será decisiva na manutenção do estado democrático e na defesa dos seus valores.
Neste caso, os promotores avaliaram a possibilidade de convidar a participar um membro dessa geração, que se tem destacado pela sua intervenção cívica e política, que publicamente perfilha valores de esquerda e que goza de grande notoriedade mediática junto da sua geração. O seu nome foi vetado! Porquê?

2007/04/03

ABRIL ESPERANÇAS MIL




Como vem sendo habitual realizar-se-à, no Mercado da Ribeira, um Jantar evocativo do aniversário da Revolução do 25 de Abril. Este iniciativa têm-se, constituido ano após ano, como um espaço saudável de convívio e confraternização, sendo já um acontecimento obrigatório no âmbito da comemorações populares do 25 de Abril. É mais uma que contribui para manter vivo e reforçar o espírito libertador da Revolução, contribuindo por essa via para a defesa dos valores de Abril.



A reserva do Jantar pode ser feita para o mail 25abril2007@sapo.pt


2007/04/02

FOI APRECIADA NA AR PETIÇÃO QUE VISA A SALVAGUARDA DOS ESPAÇOS DE MEMÓRIA DA RESISTÊNCIA


"A votação formal ainda não tem data marcada, mas as intervenções feitas pelas diversas bancadas parlamentares, ao fim da manhã da passada sexta-feira, deixam perceber que a Petição apresentada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! vai ter um acolhimento esmagadoramente favorável, quiçá unânime por parte do parlamento." Para ler mais »