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2008/07/06

ANDAR À NORA




O Palácio recebeu através do serviço de malaposta o texto que se publica de seguida. Obrigado ao autor pela sua visita e pelo contributo.

Com os votos do PS, a Assembleia Municipal de Loures chumbou uma Moção apresentada pelo BE, que condenava a recente directiva sobre o retorno dos imigrantes na Europa.
Esta directiva foi aprovada, no passado dia 18 de Junho, pelo Parlamento Europeu. Apesar da divisão que se operou no seio do grupo socialista europeu, os eurodeputados socialistas portugueses, à excepção do Sérgio Sousa Pinto, votaram contra esta directiva.
A directiva aprovada confirma um caminho de endurecimento reaccionário da política europeia. Este caminho é exactamente o oposto daquele que é necessário trilhar. Tratar esfomeados como criminosos é um atentado aos direitos humanos. Ignorar que a imigração só se contém com o desenvolvimento dos países de origem é pura cegueira.
Em concreto, a directiva define regras europeias para o repatriamento de imigrantes não legalizados. Entre outras medidas, o Parlamento Europeu aprovou a detenção, até 18 meses, dos imigrantes não regularizados, pelo simples facto de procurarem melhores condições de vida, incluindo a detenção de crianças, ainda que por um período "tão breve quanto possível", à revelia de todos os direitos de protecção de menores.
Estabelece ainda a proibição dos imigrantes expulsos de regressarem à Europa, num prazo de cinco anos, o que reforça a crescente criminalização de que têm vindo a ser alvo.
Na Assembleia Municipal de Loures, o Partido Socialista chumbou a condenação destas medidas, fazendo o contrário daquilo que os seus eurodeputados fizeram. De forma clara, só o BE, que apresentou a proposta, e a CDU, que a apoiou, condenaram estas medidas.
Contudo, não acredito que o chumbo do PS resulte de um pensamento sobre este assunto. Acredito mesmo que nenhum dos eleitos do Partido Socialista soubesse o que se estava a discutir. A sua posição definiu-se apenas com dois pensamentos: dizem eles que foi aprovado pelo Parlamento Europeu, logo deve ser bom; o BE não concorda e a CDU também não, logo deve ser bom.
Foi nesta riqueza de raciocínio que definiram o seu voto!

Pedro Rodrigues

2008/07/04

A ESTRATÉGIA DO AUTOCLISMO



A Assembleia Municipal de Loures rodopiou ontem sobre o novo regulamento de taxas e tarifas dos Serviços Municipalizados de Loures. A necessidade do novo regulamento decorre das alterações legislativas sobre estes serviços. Entre as alterações obrigatórias, está o fim da cobrança da taxa de disponibilidade ou aluguer, como é conhecida pelas pessoas. Em Loures, essa taxa é de cerca de 7,54, poderia um incauto pensar que com o fim da tal taxa, os consumidores veriam a sua factura ficar menos pesada. Engano! No baralhar e dar novo, parece que contas feitas, cada consumidor acabará por pagar ainda mais do que anteriormente.
Contudo, nada disto ficou muito claro, porque o Presidente da Câmara Municipal de Loures, também Presidente do Conselho de Administração dos SMAS, pouco percebia o conteúdo da proposta que estava a apresentar, reconhecendo que nem sequer sabia o efeito real que terá o novo esquema de taxas e tarifas sobre os consumidores. Saber, sabe apenas que só pelo facto de cada consumidor ir pagar o serviço mensalmente, terá de pagar mais 0,17€ em cada factura.
Mas para já, esse aumento que é certo, poder ser evitado pelos consumidores, se estes puxarem o autoclismo menos duas vezes por mês. Palavra do Presidente!

2008/04/23

“SE NÃO SOUBERES, COPIA”



No seu livro “Como se faz uma tese” Umberto Eco, após explicar os caminhos metodológicos necessários à realização de uma investigação social e à condensação desses conhecimentos numa tese, aconselha no final, com grande dose de humor, que mesmo após a observação dos princípios enunciados, aqueles que não se encontrem capazes para tal empreendimento, devem procurar a biblioteca de uma universidade remota, escolher uma tese desconhecida e copiá-la. O conselho visava salvaguardar aqueles que posteriormente teriam de ler o trabalho realizado. Assim, não só se pouparia o plagiador de árduos trabalhos, como se poupariam os leitores à leitura de trabalhos medíocres.
Este conselho foi ontem seguido pelo porta-voz do PS na Assembleia Municipal de Loures, Tiago Abade. Perante a dificuldade de empinar meia dúzia de ideias para uma intervenção para a Sessão Solene sobre o 25 de Abril, cingiu-se à leitura integral de um texto de Eduardo Prado Coelho.
Deste modo alcançou os dois objectivos propostos por Umberto Eco. Poupou-se ao trabalho, que mesmo que o tivesse, resultaria numa intervenção um pouco aquém do sofrível, brindando a Assembleia com um momento de boa literatura. Quando digo que se poupou ao trabalho, é bem verdade. Esta intervenção, fiz as contas, demorou 2 minutos de 37 segundos a ser feita. Este tempo incluía pesquisa simples no Google com as palavras “Prado Coelho 25 Abril”. O motor de busca fornece-nos o texto logo na quinta entrada, no sítio do Centro de Documentação da Universidade de Coimbra. Copiar e colar em 5 segundos, e pouco mais para a formatação do texto. A impressão a laser é um tirinho e já está.
No contexto, conseguiu ainda, apesar das discordâncias possíveis face ao conteúdo, por proferir a melhor intervenção do PS neste mandato. Claro está que se do ponto de vista literário a escolha foi boa, o conteúdo político pautou-se pela vacuidade. Mas não se pode ter tudo e vale mais ser assim!
Espero que este momento tenha sido a inauguração de um novo estilo de intervenção do PS.

Cá vai o texto, que merece ser lido.


Já foi há 25 anos

“Sabes que houve uma primeira vez que eu tentei explicar o 25 de Abril, e que foi um verdadeiro fiasco? Estávamos ainda em plena efervescência, naquela espécie de Maio de 68 dilatado, passado e repassado em câmara lenta às vezes exasperante, outras vezes contagiante e comovedor, e, sabe Deus porquê, os senhores da embaixada da Bulgária acharam que eu devia lá ir escolher filmes para uma semana de cinema búlgaro, que se passou ali no Apoio 70. Escolhi para abertura do Festival um filme feito por estudantes, alunos de uma escola de cinema, sobre uns jovens que roubavam carteiras nas ruas de Sófia, e aquilo nem caiu muito bem em termos oficiais, mas era do mais fresco e saudável que por lá vi. E na Bulgária deram-me uma guia, que era filha de um cineasta, que lia Freud às escondidas na biblioteca da Alliance Française, e a quem deixei os romances de Pierre Jean Jouve que levava comigo, e ela queria saber o que era o 25 de Abril e eu explicava com o entusiasmo de quem supunha (ou supunha que supunha...) que estava a inventar uma coisa inteiramente nova, que tínhamos começado a construir uma alternativa ao capitalismo, que no entanto não tinha aquele ar de pesadelo totalitário em que se tinham transformado os países de Leste, e ela a parte final até entendia, entenderia até melhor que eu, mas o principio suscitava-lhe engulhos, e de repente quase gritou para mim: «Mas o que é que vocês têm contra o capitalismo?...

Aí percebi que estas evidências nunca são inteiramente partilhadas, são evidências para quem acredita nelas, são violências para quem não acredita, e no fundo de nós próprios o enraizamento das crenças é algo de inexplicável. E comecei com ela tudo do princípio. Mas isso não me impede de dizer, e gostar imenso de que tu o entendas por dentro: "O 25 de Abril foi um dos mais belos momentos da minha vida, e o 1 de Maio um dia glorioso, como diz o Pessoa ao escrever os poemas de Alberto Caeiro" 0 que é extremamente difícil de contar, e isso tem a ver com o facto de tudo aparecer em mim mais como poema do que como narrativa, isto é, como uma sobreposição de imagens que se arrancam ao tempo normal, e que criam um contra-tempo, isto é, um tempo que resiste ao tempo normal e procura uma outra forma de ordenar as paisagens, os gestos, as palavras, etc.

Eu sabia que havia coisas que se estavam a preparar, alguns amigos (lembro-me de conversas com o Fernando Lopes) mantinham-me informado, pressentia que um tempo chegara ao seu termo, e no entanto isso aparecia como a mais improvável das probabilidades. Encontrava-me no Monte Carlo que já não existe, mas onde durante anos almocei dias a fio, ou então no Vavá, que existe mas reduzido ao fantasma de si próprio, e aí recolhia informações, trocava opiniões, avaliava hipóteses, e depois contava ao meu pai, mas ele tinha um cepticismo causticado, já vira muito e não queria acreditar demasiado. Mesmo depois de eu lhe ter levado o livro de Spínola.

Até que um dia, acordei, levantei-me, liguei o rádio como fazia sempre, e no momento em que passava a água pelos olhos para despertar melhor (é importante, para mim claro, dizer que foi neste momento, não é que isto simbolize o que quer que seja, mas é uma espécie de presilha da memória ao real, a coincidência mágica entre a água nos olhos e a ideia de revolução), ouço aquela fórmula mágica: «Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas» (dois poetas mais tarde falariam nas «forças armadas», num desvio hábil e homenageante de algo que durante meses dominou as nossas vidas), e então chamei a R. e disse: «é agora, começou tudo, ouve» - e ouvimos, e decidimos logo ir chamar os vizinhos amados amigos e sair para a rua e ir ver o que se passava - porque duma coisa estávamos certos, a de que era impossível ficarmos parados. E fomos - dum lado, havia o José António e a Hélia, doutro a Maria Alzira e o Manuel Alberto.

Chama-se a isto uma emoção estética - algo que é preciso partilhar o mais depressa possível, algo que é preciso dizer aos outros: não podes perder. Por isso repito - eu posso comprar-te todos os livros e cronologias sobre o assunto, o belíssimo álbum que o Boaventura de Sousa Santos nos forneceu, os textos de análise do António Reis ou do Medeiros Ferreira, tudo o que quiseres, mas se tu não sentires o 25 de Abril como este momento de poesia pura (o dia em que o real é a poesia absoluta), então não entendes nada de coisa nenhuma, e o melhor é desistires. É isso que torna difícil transmitir uma memória: há uma forma de o vivido nos tatuar o corpo que nada pode apagar. É, se quiseres, o paradigma da festa.

Aliás, se pegares no último romance do Helder Macedo, Pedro e Paula, verificas que é um romance sobre o 25 de Abril, porque é um romance sobre o antes e o depois, mas que naquilo que devia ser o 25 de Abril em si mesmo, temos o título do capítulo, «Festa é festa,,, a data, 1974, e a seguir linhas sem palavras, até que na página seguinte, se conclui com esta frase: «Mas festa é festa, e essa já ninguém nos tira». 0 que gosto neste «já ninguém» é que ele engloba Deus, sobretudo se nos lembrarmos daquelas discussões medievais sobre se uma rapariga que tivesse sido objecto de violação poderia deixar de o ter sido por vontade de Deus, ou se o que aconteceu se sobrepõe à omnipotência divina. E esse é o sentido radicalmente revolucionário de quando se diz de algo que foi para nós uma verdadeira festa que "esta já ninguém me tira," - nem Deus, se o quisesse, porque fui eu que o vivi. E portanto fui eu que vivi o 25 de Abril, fui eu que saí com a R., a Hélia e o Zé Antônio e fomos de carro para os lados do Carmo, ver o que se passava, e andámos em marcha atrás alucinada para fugir aos movimentos descontrolados de massas por alguns disparas desgarrados, o encontrarmos as caminhos mais adequados àquilo que pretendíamos: viver a História no momento em que ela é ainda a «nossa história».

Depois, foi à noite olhar a televisão e descobrirmos, entre alguma admiração e alguma desconfiança, o rosto dos "nossos" libertadores. Mas foi sobretudo o espanto de vermos como tudo o que parecia inabalável estava corroído por dentro, como as tropas não tinham alma para lutar em defesa de uma ditadura visceralmente minada, como a democracia era (às vezes demasiado depressa) uma «evidência», e como o MFA nos aparecia, nas suas múltiplas faces e contradições, como a total inversão do que pensávamos: afinal as Forças Armadas podem ser democráticas, podem mesmo ser de esquerda, podem mesmo ser ingenuamente de extrema-esquerda, e durante alguns meses vão desempenhar o papel do sujeito-suposto-saber, isto é, do pólo de todas as transferências, do lugar de todas as utopias, eles chegam e a situação resolve-se, nomeia-se um MFA e a democracia assegura-se...

No dia seguinte, entrada orgulhosa e feliz no espaço da Faculdade de Letras, e foram dias de uma fraternidade real, da cumplicidade interminável entre os amigos que se encontravam e a quem nos abraçávamos, mas também os sorrisos na rua. A felicidade partilhada, a alegria comum, na certeza já de que tudo o que de absoluto se vive é a coisa mais frágil deste mundo, e irá fender-se como uma porcelana no próprio momento em que ainda a julgo viver inteira. Mas não tem importância, essa já ninguém nos tira - nem Deuses, nem Reis, nem o ditador que caiu da cadeira, nem o pai precário das conversas em família... Na Faculdade, enfrentamos os primeiros choques entre os impacientes, que querem desde já tudo mais e mais, e os «realistas» , entre os quais me situo de imediato por uma espécie de instinto, para quem o essencial é continuar a viver esta quimérica unidade do povo em festa.

Mas afinal que foi o 25 de Abril? Perguntarás. Foram tantas coisas ao mesmo tempo. Foi o fim da guerra colonial, - embora o início de um processo de descolonização confuso, atribulado e sangrento. Foi a reconquista da democracia mínima, como diria Norberto Bobbio, e a rodagem dos seus novos mecanismos, e com isso a recusa feroz de qualquer nova forma de censura, de todos os processos de opressão, de todas as polícias sem controle, de tudo o que de perto ou de longe evocasse o tempo salazarento em que os discursos do "velho abutre" tinham o dom de tornar «as almas mais pequenas» (para glosar um poema de Sophia de Mello Breyner). E foi a entrada num tempo em que "as almas se sentiam maiores". 0 Partido Comunista procurava reeditar os processos de conquista de poder que tinham funcionado noutros tempos e noutros lugares: multiplicando-se em duplos mais ou menos exangues, e empurrando as alternativas reais para o espaço da não-democracia. 0 PS, procurou resistir, mesmo que para tal se aliasse aos esquerdismos mais descabelados. E lembro-me como todos os partidos, do CDS ao PPD, entravam na gramática da revolução: no fim do Campo Grande, alguém havia escrito que «Só a social-democracia é revolucionária». Uns sonhavam com uma inserção na lógica terceiro-mundista - era esta a alternativa dos militares mais ideologicamente formados (entre os quais o mais notável foi sem dúvida Meio Antunes, o mais corajoso sem dúvida Otelo, o mais inteligente e hábil sem dúvida Costa Gomes, e o mais ingénuo e exaltado Vasco Gonçalves). Outros iriam desde logo apostar na carta europeia - foi essa a genial intuição de Soares.

Contudo, o essencial do 25 de Abril, aquilo que faz que para uns se trata de uma data que os faz (nos faz) estremecer de emoção, hoje, ainda e sempre, e que para outros o importante é o que 'se instalou depois, e a data evoca apenas os excessos, as confusões, a batalha quotidiana por uma verdade incerta e inacessível, a violência das exclusões, dos saneamentos ou das fugas apressadas para o Brasil, o essencial do 25 de Abril, repito, é que se trata de um momento revolucionário (e não de uma revolução, como o PCP terá imaginado, ao querer copiar um desses regimes que hoje reconhecem ter sido de repressão e crime organizado e domínio boçal e baço das burocracias). E o que é um momento revolucionário?

É talvez aquilo que provavelmente só a nossa geração sabe ainda reconhecer em toda a sua pureza: é quando, movidos pelo desejo de outra coisa, ou melhor, de uma coisa sempre outra, vamos um pouco à frente de nós próprios, suspensos de desejo e não-saber, capazes do melhor (e por vezes do pior), num crescer de alma em que tudo converge, moral e estética, política e conhecimento, numa bola de fogo e exaltação, mitologia romântica, se quiserem, ou transcendência da história, ou ruptura das métricas do tempo, e andámos aos tiros aos relógios de uma cidade para inventarmos as cidades futuras - fique embora mais curta a nossa vida. Não te digo mais nada - dou-te as mãos, e a emoção contagia-nos de novo, como se o mundo começasse hoje aqui e agora, ou, como escreveu Samuel Beckett, «moi seul suis homme et tout le reste, divin,,.

A grande questão é sabermos se isto se transmite, ou melhor, se isto hoje, mesmo como simples menção estética, ou confinada à estética, faz ainda sentido. Não estou certo. 0 que nós vemos à nossa volta é tão obviamente diferente. Terá sido um momento da História que desapareceu para sempre? Irá regressar na curva de um ciclo ideológico cuja constituição não sabemos equacionar? Mas as diferenças saltam aos olhos: quando os estudantes antes do 25 de Abril vinham para a rua ser perseguidos e presos pela polícia, então queriam, acima de tudo, um tempo de liberdade. Quando,, já em democracia, passaram dias, semanas, meses, a inventarem novas formas de relação com o saber, novas modalidades da relação de ensino, novos esquemas de poder, autoridade e participação, era a ideia de que a felicidade poderia ser uma ideia nova na Europa. Quando hoje se manifestam pela questão das propinas, não têm nenhum mundo por detrás, nenhum incêndio por dentro das palavras, nenhum poema oculto ou murmurado, mas apenas a irreverência adolescente e a demagogia manipulada, e é por isso que depois são sages e conformes, conservadores e bem comportados, lisos e performantes, liberais e neoliberais...

Mas todos sabemos como nada se repete. Estamos no princípio de um século, e do que se passa aos nossos olhos fica apenas o cansaço de um século que se escreveu e despudoradamente se desescreveu e nos deixou agora perante o ilegível da História, sem sabermos se isto é o fim, ou o princípio de tudo.

Sobretudo desse tudo que a nossa geração não chegará já a ver, nem mesmo a conhecer, nem mesmo a nomear, mas que eu gostaria que pairasse, como um fio de luz no crepúsculo, no momento em que te começo a contar como foi, há vinte e quatro anos já, o nosso 25 de Abril, e digo: tu sabes, e nas minhas palavras, por instantes, tu és o 25 de Abril que foi.”

O texto de Eduardo Prado Coelho foi publicado na DNA em 1998.
O título do post é o título do livro de poesia de Fernando Tordo, editado no ano passado.

2008/04/15

GERIR O EMBUSTE


Ontem ao fim da tarde, a RTP realizou um directo a partir da baixa de Sacavém sobre as cheias que afectaram a cidade no passado dia 18 de Fevereiro. Além da entrevista aos lesados, tiveram lugar mais três pequenas entrevistas, uma ao Vereador João Pedro Domingues, em nome da maioria que governa a Câmara, uma ao Vereador Paulo Guedes da Silva, em representação do PSD, e uma ao Vereador José Manuel Abrantes, em representação da CDU. Tudo certo, foi dada voz ao poder e à oposição. Tudo clarinho ou quase.

Não me perderei em considerações sobre as razões das quezílias internas no PSD local. É um assunto, como dizem os políticos educados, interno no qual não me imiscuirei. Contudo se as dinâmicas internas pouco me interessam, não fico indiferente à prestação política desse partido.
Quem tenha visto a reportagem de ontem ficará com a sensação que em Loures o PSD é oposição e não poder, e que sobre o assunto visado, as cheias, tem tido uma intervenção em registo oposicionista às práticas da maioria socialista. Puro embuste.

Na Câmara Municipal de Loures, o PSD assegura a maioria absoluta ao PS, onde possui responsabilidades executivas, caucionando-lhe a actividade e acção políticas.

O PSD é poder em Loures, logo é politicamente corresponsável pelos actos de gestão.

Na Assembleia Municipal, quando a maioria socialista foi alvo de críticas à sua acção face ao problema das cheias, a defesa mais acalorada e veemente veio da bancada social-democrata.

Em 2009, o PSD surgirá nos boletins de voto apenas com uma sigla. Perante a sigla os eleitores terão o seu momento de avaliação de acção política e de proposta. O que terão de avaliar é o comportamento político efectivo do PSD e não as suas dissidências. Do ponto de vista prático o PSD chegará às eleições, não com um capital de oposição, mas de poder. Por isso devem ser julgados. As boas intervenções e intenções isoladas, não alteram o apoio prático dado pelo PSD ao PS durante este mandato. A face de oposição é um embuste, porque é negado pela acção política concreta.

2008/03/12

LOONEY TOON



Ontem tive mais uma vez os meus salões ocupados pelos eleitos autárquicos do Município de Loures, Deputados (! como gostam que lhes chamem) Municipais, Vereadores e El Presidente, a que uns tratam por Panchito, em homenagem ao seu bigode e estilo mexicanos, e outros por Teixeiróquio, por referência à sua atribulada relação com a verdade, mas nesta fase começa a merecer o cognome de O Coiote.
Em boa verdade, pouco mais não se passou do que aquilo que é habitual passar-se. Os trabalhos eram leves, mas mesmo assim importunaram-me para lá da meia-noite. Mas tudo tempo perdido, descanso roubado infrutuosamente.
Os senhores representantes, cumprindo a sua missão lá foram questionando o Sr. Presidente sobre isto, aquilo e aqueloutro. Lá foram, como é seu direito, tentando escrutinar a acção da Câmara Municipal. Com perguntas mais assertivas ou mais ligeiras, foram desfiando o rosário das suas preocupações e dúvidas.
Perante este normal exercício, assistiu-se ao também já normal chorrilho de impropérios, desmandos, insultos velados e explícitos. O Presidente da Câmara Municipal transforma cada vez mais a sua prestação neste espaço num momento looney toon. É desastroso, hilariante e nunca se sai bem.

2008/02/29

ÚLTIMO GRITO DA MODA



Pensava eu que as cheias que me arruinaram o piso térreo do Palácio tinham sido uma calamidade, mas havia-me esquecido que regularmente por cá se realizam as reuniões da Assembleia Municipal de Loures. Isso sim, são verdadeiras calamidades!Ontem, a casa encheu-se de nobres que, tal como eu viram os seus palácios devassados pela fúria das águas. Foram pedir contas ao Presidente da Câmara Municipal! Gabo-lhes a credulidade de ainda sentirem ser útil depositar esperança na personagem! Como vem sendo comum apenas escutaram desculpas e promessas vagas. Mas o momento da noite resultou do debate em torno do anunciado encerramento da extensão de saúde na freguesia de Camarate. A CDU apresentou uma moção contestando a decisão do governo de encerrar esse serviço de saúde, o PS, que na Câmara Municipal tinha chumbado uma proposta idêntica, optou desta vez pela abstenção. Os mais incautos podem pensar que este partido se tornou sensível aos argumentos contra o encerramento, mas nada disso. Ao contrário do que se tinha passado na reunião de Câmara, desta vez estavam a assistir ao debate vários habitantes de Camarate. Esse facto, fez com que no exacto momento da decisão os eleitos tenham optado por continuar a voar, mas desta vez mais baixinho. Tão baixinho, que sobre este assunto não disseram uma palavra! Incrível, que em torno de um problema tão concreto, o partido que detem a maioria absoluta na Assembleia Municipal não tenha nada para dizer aos cidadãos. Honra seja feita ao Presidente da Câmara, que acabou por dizer que não compreendia como é que os habitantes de Camarate se recusavam a ser transferidos para um Centro de Saúde fora da sua freguesia, que entendia ele ser o "último grito da moda". É verdade que a velhinha extensão de saúde de Camarate é Demodé, mas em Camarate, enquanto não existir uma melhor, as pessoas recusam-se a andar nuas. Compreensível!

2007/11/07

AS COISAS QUE SE APRENDEM NAS REUNIÕES DA ASSEMBLEIA MUNICIPAL








A Feira de Sacavém ou Feira do Espírito Santo realizou-se, durante décadas, no último domingo de Maio, inicialmente na margem do rio Trancão.
Nos anos cinquenta, sessenta e início dos anos setenta, a Feira de Sacavém era considerada para os sacavenenses e populações vizinhas, como um acontecimento importante. Para além das compras que se realizavam, que iam de produtos agrícolas a utensílios de uso doméstico e roupas, era também possível, alguma diversão e convívio das populações.
Para as mães era altura de costurarem vestidos novos para as filhas com os retalhos que iam comprar à fábrica das chitas ou do Manel Dinis. E também esse facto, pela sua raridade, se associa às memórias agradáveis da feira.
Com o passar dos anos a feira, considerando condicionantes sociais e de crescimento urbano vários, acabou por perder o seu interesse, tendo-se extinguido de forma natural.
No entanto, para quem a viveu, não deixa de ser guardada na memória com ternura e como parte importante do património pessoal.
Pessoalmente vivi a feira como todos os que aqui passaram e recordo-a com carinho.

Parece que o senhor presidente da Junta de Freguesia do Prior Velho também se lembra de descer das cercanias de Sacavém para visitar a feira. Lembra-se da sua importância, de estrear roupa nova, de andar na Roda Gigante, de tirar uma fotografia à la minuta. E coloca as suas lembranças da feira, no mesmo patamar das cheias que vinha visitar a Sacavém. Provavelmente também estreava galochas novas para visitar as cheias.
Já na altura as cheias de Sacavém eram atracção turística.


Mas a memória é traiçoeira…
As cheias de que se lembra ocorriam com alguma frequência. Na antiga Rua da Estação e na Rua dos Armazéns, mesmo na margem do rio.
As cheias que ocorreram no passado mês de Outubro foram ligeiramente mais acima, talvez uns 500 metros mais acima. Mas isso não tem importância nenhuma.


Se o senhor presidente da Junta de Freguesia do Prior Velho guarda nas suas lembranças os passeios turísticos às cheias de Sacavém e associa a galochas novas, a farturas e carrosséis, então as recentes cheias serão memórias vivas das suas lembranças e portanto deverão ser perpetuadas.
Pois então...

2007/08/23

MANIFESTO SOLIDÁRIO CONTRA A POLÍTICA PEQUENINA


Imagem retirada daqui.


Após o acordo celebrado entre a maioria Socialista e o PSD, um dos dois vereadores eleitos pelo PSD, aceitou o Pelouro do Ambiente e passou a integrar a maioria deliberativa na Câmara liderada pelo PS. Os contornos políticos deste acordo nunca foram claros, ainda hoje, para além da evidente partilha de lugares, nem o PSD, nem o PS, clarificaram qual a plataforma mínima de entendimento que preside a esta colaboração política. A única face visível é que o PS, agora coma cobertura política do PSD, passa agora a dispor de uma maioria absoluta. O vereador do PSD que aceitou desempenhar este papel é o chamado pára-quedista, não só não foi eleito directamente nas últimas eleições, estando a substituir o vereador Frasquilho, como não se conhece grande currículo autárquico. Assim, para ele, dizer isto hoje ou fazer aqueloutro amanhã é um pouco a mesma coisa. Aliás, bem se vai percebendo que da poda conhece pouco e que a sua orientação política é o poder, que o deslumbra. Só um personagem com estas características aceitaria desempenhar um papel tão desqualificado do ponto de vista político, não têm ideias políticas que o condicionem, não possui uma passado de causas, propostas e posições políticas que o obriguem a exercícios de coerência, logo tudo é ligeiro e fácil.

O vereador Guedes da Silva é de outra casta, há muito que assume a representação política do PSD em Loures, foi candidato e eleito em vários órgãos autárquicos em Loures, conhece a história política do concelho, interveio activamente nela, tem propostas claras para muitos dos problemas do município, tem uma agenda política clara, não sendo um cata-vento, é respeitado pelos seus opositores, mesmo por aqueles que por questões de divergência política insanável nunca com ele concordaram. Porém, o rigor das suas posições e a preparação que revelavam todas as suas intervenções tornaram-no merecedor de reconhecimento. O vereador Paulo Guedes da Silva, jamais aceitaria desempenhar o papel a que o outro vereador do PSD se entrega com prazer. Ser-lhe-ia impossível compactuar, solidarizar-se ou simplesmente alhear-se de medidas, propostas, opções ou posturas que sempre criticou. Por coerência e verticalidade. É neste momento indesejado no seu partido, pela mesma razão que muita gente vê recusada uma oportunidade de emprego nos dias de hoje; tem qualificações a mais, políticas neste caso! Oxalá nunca lhes falte.

2007/08/17

FUTEBÓIS

Imagem retirada daqui.
A Câmara Municipal de Loures, leva à deliberação na sua próxima reunião uma proposta de renovação do um protocolo com o Sporting Clube de Portugal.

O protocolo definia as condições de utilização do Pavilhão Paz e Amizade em Loures. As contrapartidas foram apresentadas assim pelo presidente da Câmara aquando da assinatura deste protocolo; “as colectividades de Loures beneficiam de estágios desportivos na Academia de Alcochete, tendo as instituições do concelho (escolas, associações, clubes) a possibilidade de visitar essa mesma academia, assim como o Estádio Alvalade XXI. Mas serão os jovens quem mais irá beneficiar destes protocolos: centros de formação, workshops e visitas às escolas por parte de técnicos e jogadores leoninos, são as iniciativas que visam a formação desportiva dos mais pequenos.”

Então levantaram-se vozes críticas em relação ao protocolo, acusando serem de vagas as contrapartidas para o Município, face às limitações de utilização do Pavilhão pelas escolas, restantes colectividades do concelho e por parte da própria Câmara Municipal, que decorreriam do calendário de ocupação a que ficava obrigada a assegurar. Estas dúvidas levaram a CDU a votar contra o protocolo em 2005.

Voltando o assunto à reunião de Câmara importaria saber quantas visitas de associações, escolas e colectividades foram feitas à Academia de Alcochete e ao Alvalade XXI, quantos workshops, quantas visitas a escolas de Loures fizeram os técnicos e os jogadores leoninos, no âmbito do protocolo celebrado!

2007/08/10

GENTE DO PALÁCIO II


Deambulando pela blogosfera tropecei no 4R - Quarta República e no Quarto da República. Dois ou três textos lidos de passagem descobriria que a Suzana Toscano, eleita do PSD na Assembleia Municipal de Loures, era uma das animadoras destes espaços. São dois blogues de visita obrigatória.

Outono

"Do que mais gosto é do amarelo de Setembro,
das manhãs de orvalho nas teias de aranha,
dos dias de meditação na quietude,
do clamor das gralhas, das folhas de bronze,
do restolho salpicado de feixes de palha
- mais do que o brilhante descontrolo de Maio,
é o Outono que se adapta ao meu espírito."

Alex Smith

Poema colocado por Suzana Toscano no 4R em, 22 de Setembro de 2005

2007/08/04

GENTE DO PALÁCIO I




"Vai demorar tempo a limpar a imagem do ciclismo"

Público - 04.08.2007
Artur Lopes anuncia um plano antidoping para a Volta a Portugal "extremamente apertado"


PÚBLICO - Porquê tanta polémica sobre doping no Tour?
ARTUR LOPES - Sempre que há um teste positivo há polémica. Houve o caso do Vinokourov, que é uma figura de topo, e de outros de menor mediatismo. A segunda polémica foi causada pelo facto de, pela primeira vez, se ter afastado um corredor [Michael Rasmussen] porque teve uma falta a um controlo surpresa antes da prova que o punha sob suspeita, e obrigou a sua equipa a tomar uma atitude, seguramente depois de ter conversado com o organizador do Tour e de ter ouvido o presidente da UCI [União Ciclista Internacional] a dizer que não seria bom que o Rasmussen ganhasse o Tour. Foi a primeira vez que uma equipa retirou um corredor e putativo vencedor. É uma demonstração cabal de que as coisas estão a mudar.

P- Concorda com decisão da organização da Volta a Portugal em aceitar ciclistas envolvidos na Operación Puerto?
AL- Este caso não tem a ver com a justiça desportiva, mas sim com a civil. No caso Puerto há muitas coisas por apurar e outras que não passam de puras suspeitas. Depois do convite feito e das equipas aceites, o organizador terá de ter uma razão muito forte para rejeitar inscrições, não apenas suspeitas.

P- Poder-se-ia exigir às equipas que cumprissem o mesmo código ético das grandes voltas?
AL- Não se pode exigir.Mas a Vuelta exigiu...Porque está no ProTour. Quis criar um código de ética e a associação de equipas queria subscrevê-lo. Foi a associação de corredores que não aceitou. Não se pode impor um código de ética sem impor uma sanção. Mediante um processo civil, que foi arquivado, em que não há ainda certezas sobre quem estava ligado àquela rede, não se pode de ânimo leve exigir aos organizadores que não aceitem determinados ciclistas. Se quiserem, podem não aceitar. Estarão a fazer bem? Mal? Mas, depois da equipa presente, retirá--los apenas por suspeita pode originar processos nos tribunais.

P- Há risco para a imagem da Volta?
AL- Há sempre. Mas o importante é que preparámos, com o CNAD [Conselho Nacional Antidopagem] e a UCI, um plano de controlo que é extremamente apertado, com testes sanguíneos surpresa, testes antes da Volta e durante a prova, incluindo detecção de eritropoietina.
P- Como é que o ciclismo se livrará da imagem que o liga ao doping?
AL- Vai demorar tempo, mesmo que a partir de hoje não houvesse mais ciclistas dopados. Falar-se-á sempre: "Ele subiu mais depressa que os outros, se calhar..." Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Neste momento, a malha é muito apertada e gostaria de ver a mesma malha noutras modalidades. Se calhar teriam muitos mais casos. A estatística anual do CNAD indica que o ciclismo é a modalidade com maior percentagem de atletas controlados e não é a que tem o maior número de casos.
P- Este ambiente internacional poderá prejudicar a Volta?
AL- Prejudica sempre. Haverá um prejuízo que não é mensurável. Além de fenómeno desportivo, a Volta é um espectáculo. Continuará a haver muita emoção. O ciclismo é uma modalidade única, porque as pessoas cheiram o suor do atleta, estão ali ao lado dele. Há quem faça 120 km para ver passar, por 20s, os corredores. É algo inexplicável.
P- Há mais dificuldades ao nível dos patrocínios?
AL- Sim, mas mais pelas dificuldades económicas que pelo doping.
P- Será possível um dia ter uma esmagadora maioria de equipas comprometidas com o ciclismo limpo?
AL- Tenho esperanças disso. Se houver sete, oito, dez equipas a demitirem quem se dopa, haverá um efeito de propagação às outras.
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Artur Lopes, além de Presidente da Federação Portguesa de Ciclismo, é Médico e eleito da CDU na Assembleia Municipal de Loures.

2007/07/11

SÃO TIAGO E AOS MOUROS



São Tiago (maior), também designado, após várias corruptelas e aliterações, por Santiago, foi um dos apóstolos de Cristo e terá morrido na primeira metade do Século I. Este santo tornou-se particularmente popular entre os povos cristão na Península Ibérica, estando associado às batalhas da reconquista cristã mediante múltiplas lendas, que remetem para uma intervenção sobrenatural deste santo.
Durante os primeiros séculos, São Tiago foi o padroeiro dos exércitos português e castelhano, sendo substituído em Portugal por São Jorge após a crise de 1383/85. Apesar do Castelo de Lisboa ter tomado o nome de São Jorge, a Freguesia do Castelo continua ainda a ostentar o nome de Santiago.
Pequena introdução para umas breves palavras sobre um dos frequentadores do meu Palácio, entenda-se o dos Marqueses, eleito do PS, porta-voz do grupo de eleitos na Assembleia Municipal, ou como o próprio gosta de designar, Grupo Parlamentar (!), Tiago Abade. Santinho por nome próprio e apelido. Este eleito é um rapaz novo, seguramente com um futuro promissor na já consagrada carreira política. Terá passado pelas fileiras da JS, local onde aprendeu os valores da tolerância e adquiriu bom-senso, património comum a todas as Juventudes Partidárias, refira-se em abono do rigor. Neste mandato, recaiu-lhe sobre os ombros ser o “líder” dos eleitos do seu partido nesta casa. Também não era necessária grande escolha, uma vez que a maioria absoluta de que dispõe, assegura-lhe a rede necessária à sua actuação. Pode pendurar-se no trapézio, saltar de liana em liana, ensaiar o engolimento de fogo, espadas, pregos ou outras substâncias ou objectos potencialmente agressivos para si, para entretenimento dos presentes, que no fim tudo se compõe. Não era necessário alguém com especiais capacidades de liderança, oratória ou de mediação, porque o amorfismo do PS e a sua absoluta maioria tornam estes atributos dispensáveis.
À primeira vista não parece caso de maior. Pois não seria, não tivesse este jovem imbuído de um espírito de cruzada, que faz com que toda a sua intervenção na Assembleia Municipal se revista de uma arrogância descabida. Mas pior, é o que resulta de, nas actuais circunstâncias, o meio que o envolve não lhe permitir desenvolver a noção do ridículo, nem a virtude da autocrítica.
Por mais despropositadas que sejam as suas intervenções, elas tendem a ganhar mais elogios dos seus pares, quanto mais forem acintosas, ofensivas ou demagógicas. Este jovem aprendiz de feiticeiro teve azar, no momento fundamental para o desenvolvimento e consolidação das suas qualidades e virtudes, quis o destino, que se visse envolto num meio muito pouco propício a tal. Apesar de as suas intervenções provocarem frequentemente reacções de júbilo entre os seus, se atentarmos ao conteúdo das mesmas, percebemos que esse júbilo se aproxima mais do Coliseu romano do que da Ágora ateniense. Junto dos adversários provoca frequentemente o sorriso. Não que se riam com ele, mas sim, quase sempre, se riem dele. Disto devia ser avisado.
O seu espírito de cruzada não se justifica. A falta de respeito pelas ideias e posições dos outros denotam pouca clarividência e menor inteligência.
Atrevo-me a propor-lhe a leitura de um livro, que parecendo ser para crianças é uma leitura que faz falta a muitos adultos; O Principezinho de Saint-Exupéry. Lá pelo menos aprenderá que o prazer que se pode retirar da contemplação de uma simples flor, é mais perene do que o gozo do exercício de um poder, que será sempre efémero.

2007/07/02

GESTÃO MUITO TURVA ESTA!

Com o conhecimento da Câmara Municipal de Loures, alguém está a construir um aterro junto à Ribeira do Prior Velho, no troço que se compreende o final da rua Salvador Alende e a Rotunda do LIDL (à falta de melhor topónimo identifica-se assim) em Sacavém. Alguém está a fazer isto e a Câmara Municipal de Loures sabe. Mais do que saber, a Câmara Municipal patrocina. Mas mais ninguém sabe ou pode saber, porque no local não existe placa que anuncie o dono da obra, a empresa executante, o número da licença municipal. Provavelmente esta obra não tem qualquer tipo de licença emitida, mas dela sabem os responsáveis do Município.
Mas dela mais alguém deveria saber. O aterro em causa está a ser feito junto a uma linha de água e o seu objectivo é soterrá-la em definitivo. Por isso o INAG, Instituto Nacional da Água também dela deveria ter conhecimento. Também por isso, no local deveria estar uma informação aos cidadãos dizendo que aquela intervenção no domínio hídrico estava a ser acompanhada e tinha autorização para se realizar por parte do Instituto que tem essa competência. Mas nada disso acontece.
Diz-me a experiência que o facto se vai consumar. A Ribeira do Prior Velho vai, naquele troço, ser soterrada. O promotor que tem interesse em que isso aconteça, vai faze-lo. A Câmara Municipal de Loures até o permitiu e patrocinou. O INAG nada fará. Os procedimentos de licenciamento, discussão do projecto, participação dos cidadãos, fiscalização serão todos atropelados. Mas nada de mal virá ao mundo. Ninguém será responsabilizado, a ninguém se pedirá contas, nem muito menos admoestado pela sua conduta na gestão dos assuntos públicos.
Na inauguração estarão todos, porque a contento de todos se resolveu o assunto, de forma rápida, ainda que ilegal. Os andares serão vendidos, as lojas ocupadas, e até ficou bonito!

2007/06/27

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Todos se lembram, do anúncio do Malibu. Sem stress tudo se resolve. Nas Caraíbas o tempo corre com outro ritmo. Sem pressa. Com calma. Loures deriva para lá. Os credores queixam-se que não recebem a tempo e horas. Aliás, alguns já dão de barato o tempo e as horas em que lhes venham a pagar, desde que lhes paguem. Na Assembleia Municipal, a oposição desespera pela resposta a requerimentos e perguntas. Ontem, pôde-se ouvir um deputado municipal acusar a recepção a um pedido de informação que fizera há um ano e três meses.
Na boa, sem pressa. A miríade de assessores e adjuntos não têm tempo para coligir as informações solicitadas e fornece-las atempadamente aos eleitos da Assembleia Municipal. Não que isto aconteça para dificultar o trabalho de fiscalização da mesma. Longe disso. Tal facto resulta apenas de uma especificidade cultural do local. Na boa, sem pressa.
Perante a repetição destes alongamentos temporais, o Presidente da Assembleia Municipal, trejeita franzindo sempre o sobrolho, não sei se condenando se anuindo a postura da Câmara. Encolhe os ombros. É um fatalismo. Que fazer? Levar na boa, sem pressa.
A conclusão do anúncio é: “Se eles levassem a vida tão a sério como nós, não teriam inventado o Malibu.”
Parece inevitável que Loures venha internacionalmente a ser conhecida por uma bebida exótica, com aroma a banana.

2007/04/24

UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA

A MORTE DE SÓCRATES, Quadro de David, 1787


Ontem, na Assembleia Municipal de Loures, o PS voltou a posicionar-se de modo interessante no plano ideológico. Como é da praxe, a proximidade das comemorações do 25 de Abril e do 1º de Maio, motiva sempre a apresentação de Moções e Saudações evocativas destas datas e do seu significado. O BE fez as despesas de levar a plenário, para deliberação, dois textos, um sobre Abril e outro sobre Maio. Como não podia deixar de acontecer, qualquer um deles, tinha a marca ideológica dos proponentes. É normal que assim seja, tendo para além das considerações mais ou menos de circunstância, que todos acolhem, outras considerações de cariz mais político partidário que a alguns repele.
Na votação da Moção sobre o 25 de Abril, o PS associou-se ao texto, que não averbou nenhum voto contra, tendo apenas 7 abstenções da bancada do PSD. Na votação da Moção sobre o 1º de Maio, o PS não aguentou as referências à deriva neoliberal do Governo, às referências à desigualdade de distribuição da riqueza, nem às criticas à diminuição da qualidade de vida do povo trabalhador. Votou contra! Até o PSD encontrou margem para se abster, valorizando o que de essência existia no texto.
Sarcozy pode continuar espantado, a deriva neoliberal do PS já não é meramente conjuntural, ela tornou-se a cultura política do Partido.

2007/03/28

O PAPAGAIO


“O Senhor não se ofenda, mas está a ser um papagaio!” Tirada do Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Loures dirigida ao eleito do Bloco de Esquerda, Tiago Faria. Mais uma para o nível zero da política em Loures. O protagonista é fértil em tiradas que podem começar a ser compiladas num Bestiário da Assembleia Municipal de Loures. Mais uma vez, a Assembleia Municipal de Loures fica marcada pela intensificação de uma postura trauliteira por parte de maioria do PS. Os insultos no âmbito das intervenções e os apartes de mau gosto ou mesmo ofensivos são cada vez mais frequentes. A maioria aprofunda a sua postura de intolerância, arroga-se visionária da única perspectiva política valida, e a partir daí justifica todo o tipo de impropérios.


Neste agravamento, tem responsabilidade a Presidência da Mesa da Assembleia que não censura estes comportamentos cada vez mais frequentes e que nada têm que ver com a eloquência do debate político.

2007/03/01

O HOSPITAL DE LOURES E A CRIATIVIDADE



Na última reunião da Assembleia Municipal fomos brindados com mais um momento de pura excitação do Presidente da Câmara Municipal de Loures.
O processo da construção do Hospital de Loures, adaptado à televisão, equivaleria à série televisiva Dallas. Longa e cheia de tramas complexas. Nos últimos episódios o actual Governo anulou o concurso lançado pelo Governo anterior e comprometeu-se a lançar novo concurso. Pelo meio, foi dizendo que o novo concurso seria para uma unidade hospitalar mais modesta do que o inicialmente previsto. Assim temos andado, sem que a coisa ande.
Neste intervalo do espectáculo, o Presidente da Câmara Municipal de Loures resolveu dar um ar da sua graça e em declarações à comunicação social garantiu que o novo hospital teria todas as valências previstas no anterior concurso, mesmo número de camas e tudo…
Atenção que há novidades sobre o Hospital de Loures! Assim pensou toda a gente. O Presidente da Câmara já teve acesso a novas informações vindas do Ministério da Saúde. Enfim o processo vai avançar um pouco.
Pedidas mais explicações ao Presidente da Câmara, nomeadamente se este já teria na sua posse o Programa Funcional do novo Hospital, espante-se com a resposta; O senhor Presidente da Câmara disse que não sabia de nada, mas que questionado usou da criatividade para responder. Como não sabia, inventou.
Claro que o disparate é redondo demais para não o voltar a explorar. Assim, na última reunião da Assembleia Municipal um eleito da CDU voltou a fazer a mesma pergunta ao Presidente da Câmara. – Confirma o Senhor o que disse à Comunicação Social sobre as valências do novo hospital de Loures ou de facto foi mesmo só criativo? A resposta ainda foi melhor. – Não sei, mas o senhor também não sabe se vai ser diferente, logo será igual.
Aparte o ridículo e a hilariedade, fica a gravidade do Presidente da Câmara Municipal de Loures tratar este assunto ao nível da anedota. Mas há algo ainda mais grave. A Câmara Municipal não consegue hoje, nem mesmo a facilidade que decorreria da sintonia politico-partidária existente entre Município e Governo, estabelecer quaisquer canais da comunicação eficazes sobre assuntos tão importantes como seja a construção do Hospital de Loures. Deste modo, o ridículo a que o Presidente da Câmara se expõe é o mesmo que recai sobre o órgão a que preside. Neste ponto, perdemos todos a vontade de rir!