2007/03/13

OS HOMENS PERIGOSOS


"Todos os Homens sonham, mas não da mesma maneira. Existem aqueles que têm os seus sonhos de noite, nos lugares mais recônditos de suas mentes e, ao despertarem, pela manhã, descobrem que tudo não passou de ilusão. Perigosos são os homens que sonham de dia, porque são capazes de viver os seus sonhos de olhos abertos, dispostos a torná-los realidade"

T.E.Lawrence

2007/03/12

AINDA AS URGÊNCIAS


A Traição das Imagens (1928-1929), obra conceptual, desenho com legenda, jogando com a noção de representação, ceci n’est pás une pipe (isto não é um cachimbo) a legenda nega a evidência da imagem.


A acção política é sempre feita de cumplicidades. É da sua própria natureza. Mas também é feita, quando honesta, de princípios e responsabilidade. Na última reunião da Assembleia Municipal de Loures o Partido Socialista chumbou uma moção que discordava da intenção do Governo de encerrar a Urgência do Hospital Curry Cabral. Deste modo, a maioria do PS colocou a sua cumplicidade política com o Governo à frente dos interesses da população do Município de Loures. Para essa maioria de votos, que chumbara uma posição de discordância com a deslocação dos utentes para a Urgência do hospital São José, contribuíram os votos dos Presidentes de Junta de Freguesia do PS das Freguesias de Unhos, Sacavém, Prior Velho, Bobadela, Apelação e Moscavide. Estes Presidentes de Junta devem ser instados a explicar nas suas freguesias a posição que assumiram. Concordam eles com o propósito do Governo de encerrar a Urgência do Hospital Curry Cabral? Claro que sim. Assumiram na reunião da AM Loures essa posição. É a posição assumida por eles do interesse das populações das suas freguesias? Claro que não. Aliás, foi evidente nessa reunião, na qual a votação se fez sem debate, que nenhum argumento de defesa pode ser aduzido nesta questão.
Mesmo assim, estes Presidentes de Junta, membros da Assembleia Municipal de Loures pela legítima inerência que decorre do facto de serem a voz das suas freguesias, calaram-se e votaram. Prestaram um péssimo serviço àqueles que representam. Escolheram a cumplicidade com o Governo à defesa das suas populações. Não duvido que o tenham feito por princípios de fidelidade partidária, mas falharam na lealdade que devem a quem os legitimou. Conseguirão com palavras negar a evidência das suas acções?

LILY HAS A ROSE


lily has a rose
(i have none)
"don't cry dear violet
you may take mine"

"o how how how
could i ever wear it now
when the boy who gave it to
you is the tallest of the boys"

"he'll give me another
if i let him kiss me twice
but my lover has a brother
who is good and kind to all"

"o no no no
let the roses come and go
for kindness and goodness do
not make a fellow tall"

lily has a rose
no rose i've
and losing's less than winning(but
love is more than love)

E.E. Cummings


O SOL VAI FICAR EM ESTREMOZ E PLUTÃO EM ÉVORA MONTE

"O sistema solar vai espraiar-se pela planície alentejana. O Sol, um disco de 3,3 metros de diâmetro, ficará em Estremoz. A 14 quilómetros de distância, Plutão será um berlinde de cinco milímetros no alto do castelo de Évora Monte, com vista desafogada para a paisagem, manchada aqui e ali por oliveiras. O Centro Ciência Viva de Estremoz vai criar um modelo do sistema solar à escala, único na Península Ibérica. Em vez de os planetas e asteróides serem representados ao calhas, tanto os seus tamanhos como as órbitas serão rigorosos e proporcionais à realidade. A ideia é inaugurá-lo a 27 de Maio, data do segundo aniversário do Ciência Viva de Estremoz. Foi de um acaso que surgiu este projecto. Compraram uma maqueta do sistema solar para o Centro Ciência Viva de Estremoz, com casa no Convento das Maltezas, no centro da cidade. "Olhámos para aquilo e dissemos: "Está tudo fora de escala"". E tivemos a ideia de espalhar os planetas pelo convento", conta-nos o geólogo Rui Dias, director do centro. Mas um pequeno problema impedia a construção de um sistema solar à escala do convento. "Chegámos à conclusão de que, se tentássemos meter tudo dentro do convento, precisaríamos de um microscópio para ver vários planetas. Nem sequer a cidade de Estremoz chegaria." E se se construísse um modelo à escala do concelho?"

12.03.2007, Teresa Firmino, IN Público, caderno P2

2007/03/10

PASSAR O MURO

© Oleg Popov/Reuters

De um lado chamam-lhe o “muro da vergonha”, do outro “barreira de segurança”. O projecto Face to Face quer atenuar o peso das toneladas de betão que separam Israel e a Cisjordânia com caras bem dispostas de ambos os lados.O muro suporta as imagens. Estamos a olhar para ele. Por trás das imagens há muro. É certo.O muro é de um material concreto. Inultrapassável. Estamos a olhar para eles e sentimos que afinal é possível passar para lá - pela imaginação. Em Belém, os rostos de israelitas e palestinianos estão do mesmo lado, para que se olhem e se compreendam.

© Oleg Popov/Reuters

do blog http://blogs.publico.pt/artephotographica/

“PROQUÊ”? PROQUAL



Arnaldo Madureira, 1961 (actual Av. Estado da Índia)

25 de Julho de 2005. Data oportuna para o início das obras de requalificação da Av. Estado da Índia e Praça da República em Sacavém, inseridas num programa cofinanciado pela Administração Central, o PROQUAL. A poucos meses das eleições autárquicas, logo, em plena campanha eleitoral a Câmara Municipal de Loures, com aparato inicia uma das mais importantes obras de requalificação já realizadas em Sacavém. Nessa altura quem passasse por Sacavém poderia ver a promessa de futuro com imagens virtuais da obra já concluída, esquina sim esquina não.

Imagem recolhida do Site da Câmara Municipal de Loures

Pela profundidade da intervenção, pela área abrangida e pelo investimento implicado, esta obra careceria da Câmara Municipal de Loures uma atenção redobrada.
Sacavém dificilmente terá outra oportunidade como esta para a requalificação do seu espaço urbano. Esta Administração Municipal desperdiçou uma oportunidade única de elevar a qualidade urbanística da Cidade de Sacavém. Por este facto os habitantes de Sacavém deveriam ter a destreza de lhe exigir responsabilidades.
Quase 2 anos depois, da conclusão da obra não há perspectivas credíveis. Pelo caminho o Governo reduziu a sua comparticipação no financiamento da obra. Uma das empresas escolhidas pela Câmara municipal faliu. Os prazos foram dilatando e a área de intervenção foi sendo reduzida. Os moradores da zona levam quase dois anos de pó, lama, buracos e desvios. À Praça da República a requalificação não chegará tão cedo e da Av. Estado da Índia, apenas o troço neste momento em obra será requalificado. O Parque subterrâneo que se está a construir numa das pracetas adjacentes à Av. Estado da Índia arrisca-se a tornar-se um fracasso, sendo já um motivo de preocupação para os moradores que não conhecem as condições de utilização prevista para este equipamento, tendo por certo apenas a redução dos lugares de parqueamento à superfície.

Arnaldo Madureira, 1961 (Praça da República - chafariz)

Quanto às informações necessárias vive-se a lógica do disfarça. Desde o início que a Junta de Freguesia de Sacavém afirma não ter conhecimento de quase nada do que se vai passando nesta novela. Na redução do financiamento nem a Câmara Municipal nem a Junta de Freguesia de Sacavém ousaram levantar a voz contra o Governo. Quanto aos prazos as poucas pronúncias públicas resumem-se à expressão recorrente “Temos tido dificuldades, mas agora é que é!” A página oficial da Câmara Municipal de Loures continua a informar que, “Se tudo correr conforme previsto, sendo que no caso das intervenções em ambiente urbano as “surpresas” são sempre um facto a ter em linha de conta, as obras deverão estar concluídas ainda em 2006(!).” Em 2006? Parece-me difícil.

DO FUNDO DO BAÚ


A acumulação de esquecimentos e distracções tem trazido o Presidente da Câmara de Loures cada vez mais alarmado. No início começaram por ser esquecimentos simples e pontuais que acontecem a toda a gente em momento de stress, não se sabe onde deixa os chinelos, guarda-se o açucareiro no frigorífico ou deixa-se a sogra dois dias na estação de Santa Apolónia. Coisas simples. Passado pouco tempo começou o esquecimento das promessas eleitorais, mas essa nem era uma situação muito grave, porque é um esquecimento normal e porque também não se pode pedir a ninguém tanta memória. A situação passou, no entanto, assumir contornos muito graves. Nos últimos tempos o Presidente da Câmara Municipal de Loures apercebeu-se que se começava a esquecer que era ele o Presidente. A quantidade de vezes que se vê ultimamente surpreendido por situações próprias da vida da Autarquia, sobre as quais não sabe nem se lembra de nada, foi o derradeiro sinal de alerta. Assumindo, a típica postura de quem vai sempre a jogo e não vira as costas às adversidades da vida. O Presidente da Câmara Municipal lembrou-se de contactar o vendedor que no mercado em Cantão lhe havia vendido as máquinas fotográficas para oferecer aos trabalhadores da autarquia, para lhe encomendar um lote de ginseng chinês. Esta solução só teve um contratempo. As dificuldades de comunicação entre o Presidente e o Senhor Xau Ping Tem resultaram numa encomenda de 2 toneladas do referido produto, em pacotes individuais de 800 gramas. Se de melhor o Senhor Presidente não se lembrar, pelo menos os trabalhadores da Câmara Municipal de Loures já têm mais uma prenda exótica.
Texto editado em 24 de Junho de 2004 no blog http://aconteceemloures.blogs.sapo.pt de lá para cá percebeu-se que o ginseng não melhora a memória e que o Presidente da Câmara anda mais esquecido que nunca.

2007/03/09

ALHEIRA

Este Post é dedicado à minha amiga Rossana (não sei se é a grafia correcta)

Na leitura dos jornais existem os grandes temas que mobilizam a opinião pública, fazem as aberturas dos telejornais e as parangonas da imprensa. Depois existem as notícias de encher, pelas quais passamos como gato em telhado de zinco. Normalmente as mais interessantes são essas. Têm sido publicadas notícias sobre alegados estudos científicos que alertam para a perigosidade da alheira, nomeadamente no que respeita à sua qualidade microbiológica. Nas páginas do Público podemos até ver a fotografia a cores da maldita bactéria que habita as nossas alheiras. O primeiro apontamento sobre esta polémica deve ser. Há poucas coisas melhores que uma alheira de caça servida com batatinhas fritas e um ovo estrelado. Logo, na abordagem à alheira prefiro a bata branca da cozinheira à da cientista de laboratório. Claro que todas as regras de higiene alimentar sejam asseguradas e melhoradas, da produção à confecção. Mas só se daí resultar a possibilidade do primeiro apontamento, caso contrário que esqueça o assunto, porque deve continuar a ser mais perigoso atravessar a 24 de Julho a partir das 02h00 do que comer uma alheira.
Quando tiver oportunidade opte pela alheira.

Enchido tradicional fumado, cujos principais ingredientes são a carne e gordura de porco, a carne de aves (galinha e/ou peru) e pão de trigo, o azeite e a banha, condimentados com sal, alho e colorau doce e/ou picante. Podem ainda ser usados como ingredientes a carne de animais de caça, a carne de vaca e o salpicão e/ou o presunto envelhecidos. É um enchido com formato de ferradura, cilíndrico, sendo o interior constituído por uma pasta fina na qual se apercebem pedaços de carne desfiadas e cujo invólucro é constituído por tripa natural, de vaca ou de porco. O uso da menção Produto Específico obriga a que o enchido seja produzido de acordo com as regras estipuladas no caderno de especificações, o qual inclui, designadamente, o processo de produção.

História

Foi inventada pelos judeus como artimanha para escaparem às malhas da Inquisição. Como a sua religião os impedia de comer carne de porco, eram facilmente identificáveis pelos seus perseguidores pelo facto de não fazerem nem fumarem os habituais enchidos de porco. Assim, substituíram a carne de porco por uma imensa variedade de carnes, que incluíam vitela, coelho, peru, pato galinha e por vezes perdiz, envolvidos por uma massa de pão que lhes conferia consistência. A receita acabaria por se popularizar entre os cristãos, mas estes juntavam-lhe a omnipresente carne de porco.
Hoje, as mais afamadas são as de Mirandela, mas por toda a Beira Alta e Trás-os-Montes se fazem alheiras artesanais de excelente qualidade.Geralmente são fritas em azeite e servidas com legumes cozidos. Mas também podem ser estufadas, depois de envolvidas em couve lombarda.

2007/03/07

8 DE MARÇO



Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo. Assinalar este dia pretende chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e levar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher.

Nota: as fotos são referentes a um incêndio que ocorreu numa fábrica em Nova Iorque em 1911. Na fábrica têxtil Triangle Factory, as operárias trabalhavam trancadas para não poderem fazer pausas no trabalho. Um incêndio matou mais de 100 trabalhadoras, muitas lançaram-se dos últimos dois andares do edifício onde estava a fábrica instalada.
Aguns marcos



1691 -Estados Unidos As mulheres votam no Estado do Massachussetts. Perdem este direito em 1789.

1788 - França Condorcet, filósofo e homem político francês, reclama para as mulheres o direito à educação, à participação na vida política e ao acesso ao emprego.

1792 - Reino UnidoMary Wollstpnecraft pioneira da acção feminista, publica uma vindicta das Mulheres.

1840 - Estados Unidos Lucrécia Mott lança as bases de Equal Rights Association pedindo a igualdade de direitos para as mulheres e para os negros.

1857 - Estados Unidos No dia 8 de Março, em Nova Iorque, greve das opcrárias têxteis para obter a igualdade de salários e a redução das horas dc trabalho, para 10 horas por dia.

1859 - Rússia Aparecimento de um movimento feminino em St. Pctersburgo para a emancipação da mulher.

1862 - Suécia As mulheres votam nas eleições municipais.

1865 - Alemanha Louise Otto funda a Associação Geral das Mulheres AIemãs.

1866 - Reino Unido John Stuart MIII, filósofo e economista inglês, reclama o direito de voto para as mulheres.

1868 - Reino Unido Criação da Sociedade Nacional para o Sufrágio Feminino.

1869 - Estados Unidos Nascimento da Associação Nacional para o Sufrágio das Mulheres. O estado dc Wyoming concede o direito de voto às mulheres para atingir o número de eleitores necessário para entrar na União.

1870 - França e Suécia As mulheres têm acesso aos estudos médicos. - Turquia Inauguração de urna Escola Normal destinada a formar professoras para as escolas prirnárias e secundárias para raparigas.

1874 - Japão Abertura da primeira Escola Normal para raparigas.

1878 - Rússia Abertura da primeira Universidade feminina em St. Petersburgo.

1882 -. Estados Unidos Susan B. Anthony funda o Conselho Nacional de Mulheres, tendo como patrono Victor Hugo; o célebre escritor era então um dos chefes do Partido Republicano.

1893 - Nova Zelândia Concedido o direito de voto às mulheres.



1901 - França O deputado socialista René Viviani, sustenta pela primeira vez um debate sobre o direito de voto das mulheres.



Links de interesse sobre o tema:

www.piratininga.org.br/artigos/2004/01/blay-8demarco.html
www.mdmulheres.com/index.html
http://umar.no.sapo.pt/principal.htm

O TEU RISO


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.


Pablo Neruda

NOVO CENTRO DE SAÚDE PARA CAMARATE




"Todas as manhãs, o “cenário” é o mesmo, dezenas de pessoas concentram-se à porta do centro de saúde. A abertura é às 8h00, mas há quem chegue muito antes, na esperança de uma consulta. Um prédio sem elevador alberga o centro de saúde há mais de 30 anos. Para muitos utentes, as escadas são um obstáculo difícil de ultrapassar. Exemplo disso é o marido de Ana Paula Lobo doente há 16 anos. Incapaz de subir os degraus, nas consultas é mulher que tem que o representar. Para evitar contratempos, costuma marcar a consulta com bastante antecedência, mas como tantos outros, às vezes é obrigada a vir sem marcação prévia. Mais sorte teve Isabel Pestana que chegou por volta das 5h00 e fez turnos com o filho para que o marido doente tivesse a consulta de que tanto necessita. O Centro de Saúde de Camarate serve mais de 25 mil pessoas e apesar das muitas dificuldades de funcionamento, receia-se que o número de utentes possa ainda aumentar. A Comissão de Utentes tem já uma alternativa, um espaço onde consideram que poderia ser instalado um novo centro de saúde. Sem resposta da Administração Regional de Saúde, decidiram avançar para um protesto. Para além das más condições do centro de saúde, a Comissão de Utentes contesta também a decisão de fechar das urgências do Hospital Curry Cabral que servem a população da freguesia de Camarate."




2007/03/06

86 ANOS 1921»2007


Por que se será militante do PCP? Talvez por tantas razões diversas, algumas até contraditórias, que qualquer uma isolada só por si não o justificaria. Seja uma inquietação e um contentamento. Seja um isolamento e uma partilha. Seja um comprometimento e uma rotura. Seja uma vontade e uma obrigação. Seja um estado de alma e uma constância. Seja uma ética e uma estética. É uma forma de ser humano que encontramos, se perspicazes, mesmo em muitos que na retórica proclamam o oposto. Não é uma superioridade, antes uma igualdade. Pré-Marx ou pós-Lenine estas pessoas sempre existiram outras assim existirão no futuro. Ao PCP e aos seus militantes. Parabéns. Que os anos não pesem, porque no campo dos valores a idade é uma abstracção.

2007/03/05

O DRAGÃO



Começa hoje em Pequim o Congresso Nacional do Povo. Este é o maior Parlamento do mundo com cerca de 3000 delegados. Independentemente de todas as considerações e opiniões sobre a China, o seu modelo económico, político e social, este facto merece referência. Não só se reúne o maior Parlamento do mundo, como se reúne o Parlamento do país mais populoso do mundo. A China mantém-se para a maioria como algo longínquo. Como uma realidade lendária e distante. Porém, o mundo recentra-se e a China vai ocupando o seu lugar central nos novos equilíbrios mundiais. Em 2005 a população estimada da China era de 1,306,313,812 hab. . A partir de hoje e durante cerca de 10 dias os representantes de 1/6 da população mundial debaterão e decidirão o seu futuro próximo. E creio bem que não erro se disser que decidirão também o nosso.

PAISAGEM


Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.
Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores, elástica e dura.
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.
Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento,
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.
Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.
Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andresen

2007/03/04

IMAGENS DISTANTES I

Igreja de Camarate na rua Guilherme Gomes Fernandes, fachada principal
Sem data
Autor: Madureira, Arnaldo


MADRIGAL



Toda a manhã
fui a flor
impaciente
por abrir.
Toda a manhã
fui ardor
do sol
no teu telhado.
Toda a manhã
fui ave
inquieta
no teu jardim.
Toda a manhã
fui ave ou sol ou flor
secretamente
ao pé de ti.


Eugénio de Andrade

MEMÓRIA







Concentraram-se ontem em Santa Comba Dão activistas da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP). Objecto era contestar a intenção da Câmara municipal de criar uma Casa Museu dedicada ao Ditador. A circular existe também um abaixo-assinado destinado à Assembleia da República para que esta impeça a criação de um espaço revisionista da ditadura portuguesa. Lá estiveram alguns daqueles que durante a ditadura sofreram as suas ignomínias, foram presos e torturados. Mas não estavam todos. Faltou lá o povo que viveu meio século de opressão e repressão, faltaram lá os camponeses que trabalhavam à sombra da GNR, faltaram lá os operários reprimidos sempre que ousavam discordar das condições em que viviam, faltaram lá os soldados mortos nas guerras do ultramar. Mas estiveram lá os representantes dessa memória.
Em nome dessa memória, há muito que Portugal deveria ter um Espaço dedicado ao Estado Novo, realmente perpetuador da memória do regime, didáctico junto das novas gerações. O ideário fascista não morreu com Salazar. Como canta Sérgio Godinho “O fascinho é uma minhoca que se infiltra na maça, ou vem com botas cardas ou com pezinhos de lã…” A memória colectiva dos povos é um fenómeno altamente interessante. O tempo suaviza as realidades, remodela-as, exclui da memória as factos traumatizantes, mas esta relativização torna os povos permeáveis à reincidência em erros antigos. Grande parte da defesa da “Obra de Salazar” assenta na memória construída de uma realidade inexistente e projecta-se nas frustrações do presente. Quem defende hoje a ditadura, o fim da liberdade de expressão, as perseguições e prisões políticas, a inexistência de liberdades sindicais e cívicas, o Partido Único, as eleições falseadas, o isolamento internacional, a repressão policial? Estes foram aspectos reais do Estado Novo. Ouvi um popular dizer que “Salazar deixou os cofres cheios de ouro” e a barriga das pessoas cheia de fome. Centenas de milhares de portugueses emigraram durante esses 50 anos. Fizeram-no para fugir à miséria. Em 1974 viviam em Paris cerca de um milhão de portugueses. A capital francesa era a cidade do mundo com mais portugueses, o dobro de Lisboa. A Gare d'Austerlitz era a sua porta de chegada.
É cada vez mais necessário uma reabilitação da memória, honesta e factual. Ninguém quer Salazar ou o seu Regime. As populações querem segurança, dignidade, desenvolvimento, melhorias na sua condição de vida. Na dificuldade de verem essas aspirações serem correspondidas procuram outras respostas, nem sempre as mais correctas.

LUA DISFARÇADA



E a meio da noite a Lua ficou avermelhada. Esta sequência de imagens mostra o eclipse total do satélite natural da Terra a partir de Riad, na Arábia Saudita. Um eclipse total da Lua acontece quando o Sol, a Terra e a Lua ficam no mesmo alinhamento. A Lua não fica totalmente invisível porque a pouca luz do Sol que passa é deflectida ao atingir a atmosfera terrestre, fenómeno que explica esta cor avermelhada. O eclipse de ontem foi o primeiro de dois previstos para este ano. O próximo terá lugar em pleno Verão, a 28 de Agosto, e será visível no oceano Pacífico e na maior parte do continente americano. Fotos: Hassan Ammar/Reuters www.publico.pt

DE MACA A MACAU





MACAU

Num recente debate organizado pelo Diário de Notícias sobre a suburbanidade dos Municípios de Loures e Odivelas, o Presidente da Câmara Municipal de Loures defendeu o melhor que pode e soube o seu Município. Claro que era dispensável afirmar que a centralidade da Área metropolitana era o Concelho de Loures. Sem dúvida que nos últimos 30 anos o Município se infraestruturou. Hoje tem mais oferta escolar, desportiva e cultural, pelo menos no número e na qualidade dos seus equipamentos colectivos. Nas políticas é outra conversa. A radical melhoria das vias de acesso reduziu distâncias e isolamentos e dessa forma também a suburbanidade do território diminuiu. A interdepedência funcional territorial de hoje torna ridícula hoje alguma da discussão que sem tem em torno da gestão do território. Ridícula até porque entre a retórica ouvida e a praxis vai um mundo de permeio. Loures tem em discussão o seu PDM. No fim veremos em quando se reduzirá a sua área destinada a actividades económicas e em quanto aumentará a área destinada à habitação. Veremos ainda, depois das preocupações em torno dos equilíbrios ambiental e ecológico, em quanto se reduzirá a Reserva Agrícola Nacional e a Reserva Ecológica Nacional. Em Odivelas, após um alegado passado de betão, quantos milhares de novos fogos foram licenciados?
Mas além deste debate Macro, existem outros apontamentos dignos de registo. Nesse debate o Presidente da Câmara Municipal de Loures, entre as jóias exibidas, referiu o Pavilhão de Macau comprado à Parque Expo com a sua fachada réplica da Igreja de São Paulo, como sendo um pólo de grande atracção de visitantes ao Concelho. Espero que saiba que a fachada é tão-somente um cenário sem valor patrimonial. Espero ainda que também perceba o mau negócio que foi a compra daquele monte de sucata e de como esse dinheiro teria sido melhor aplicado na recuperação de edifícios com real valor patrimonial, e que esses sim poderiam ser verdadeiros pontos de interesse no Concelho.
Porém, a questão da suburbanidade está também ligada a uma menor qualidade de vida. O suburbano, por assim dizer, vive longe do trabalho, vive longe da oferta cultural e lúdica, vive longe dos serviços essenciais e vê daí a sua vida complicada. São estes sem dúvida os vectores fundamentais da questão e é sobre eles que a acção política deve incidir. Fachadas são fachadas, só servem para encher o olho.


MACA

Chegamos à Maca do título. O encerramento anunciado do Serviço de Urgência do Hospital Curry Cabral vai obrigar 140 mil habitantes das Freguesias da Zona Oriental de Loures a deslocarem-se para o Hospital de São José na freguesia do Socorro. Não será necessário escrever muito sobre a qualidade da alternativa proposta no estudo técnico encomendado pelo Governo. Esta decisão suburbaniza mais a população do Concelho de Loures, dificultando-lhe o acesso a um serviço fundamental. Esta decisão anunciada segue-se a outra recente que encerrou os CATUS em Santa Iria de Azóia e Prior velho, reduzindo já os serviços de saúde nesta zona de Loures.
Sobre estas questões determinantes para a qualidade de vida dos habitantes de Loures, a Câmara Municipal de Loures e a maioria que a gere nada disseram. Aliás, foram críticos das manifestações de desagrado das populações a quando do encerramento dos CATUS e remetem-se ao mais profundo silêncio perante a possibilidade do encerramento das urgências no Hospital Curry Cabral. Na última Assembleia Municipal, só o PS, incluindo os Presidentes Socialistas das Freguesias afectadas, votaram contra uma posição de condenação das intenções anunciadas.
Não se percebeu se por apoiarem a medida ou se por terem medo de dizer ao seu Governo que não a apoiam, Certo é que em Loures não há voz institucional sobre este assunto. Pode ser que ninguém de conta… Espera o Presidente da Câmara!

2007/03/01

O HOSPITAL DE LOURES E A CRIATIVIDADE



Na última reunião da Assembleia Municipal fomos brindados com mais um momento de pura excitação do Presidente da Câmara Municipal de Loures.
O processo da construção do Hospital de Loures, adaptado à televisão, equivaleria à série televisiva Dallas. Longa e cheia de tramas complexas. Nos últimos episódios o actual Governo anulou o concurso lançado pelo Governo anterior e comprometeu-se a lançar novo concurso. Pelo meio, foi dizendo que o novo concurso seria para uma unidade hospitalar mais modesta do que o inicialmente previsto. Assim temos andado, sem que a coisa ande.
Neste intervalo do espectáculo, o Presidente da Câmara Municipal de Loures resolveu dar um ar da sua graça e em declarações à comunicação social garantiu que o novo hospital teria todas as valências previstas no anterior concurso, mesmo número de camas e tudo…
Atenção que há novidades sobre o Hospital de Loures! Assim pensou toda a gente. O Presidente da Câmara já teve acesso a novas informações vindas do Ministério da Saúde. Enfim o processo vai avançar um pouco.
Pedidas mais explicações ao Presidente da Câmara, nomeadamente se este já teria na sua posse o Programa Funcional do novo Hospital, espante-se com a resposta; O senhor Presidente da Câmara disse que não sabia de nada, mas que questionado usou da criatividade para responder. Como não sabia, inventou.
Claro que o disparate é redondo demais para não o voltar a explorar. Assim, na última reunião da Assembleia Municipal um eleito da CDU voltou a fazer a mesma pergunta ao Presidente da Câmara. – Confirma o Senhor o que disse à Comunicação Social sobre as valências do novo hospital de Loures ou de facto foi mesmo só criativo? A resposta ainda foi melhor. – Não sei, mas o senhor também não sabe se vai ser diferente, logo será igual.
Aparte o ridículo e a hilariedade, fica a gravidade do Presidente da Câmara Municipal de Loures tratar este assunto ao nível da anedota. Mas há algo ainda mais grave. A Câmara Municipal não consegue hoje, nem mesmo a facilidade que decorreria da sintonia politico-partidária existente entre Município e Governo, estabelecer quaisquer canais da comunicação eficazes sobre assuntos tão importantes como seja a construção do Hospital de Loures. Deste modo, o ridículo a que o Presidente da Câmara se expõe é o mesmo que recai sobre o órgão a que preside. Neste ponto, perdemos todos a vontade de rir!