2008/04/07

QUE A CHINA SE LIBERTE




Temos tido os dias animamos pela fuga da chama olímpica até Beijing. As imagens são degradantes, cidadãos tentam desesperadamente interromper os percurso da tocha que percorre as maiores cidades do mundo. Fazem-no por protesto contra a soberania da China sobre o território do Tibete. Os manifestantes acusam a ditadura chinesa de oprimir o povo tibetano e de violar e reprimir a sua herança cultural específica. Por cá deu mesmo entrada uma Petição sobre o tema na Assembleia da República.

Claro que falar hoje de herança cultural, não significará para ninguém o retorno ao Tibete de 1950. Nem sequer alguém se lança sobre a chama olímpica exigindo que no Tibete se restaure um Estado Feudal, onde a população se dividia entre servos, escravos e uma elite clerical ociosa e cruel. Nenhum dos manifestantes defende a reintrodução das punições tradicionais, que passavam pela amputação de membros e pelo cegamento. Talvez sejam poucos os manifestantes a reivindicar a restauração de uma Teocracia. Aquando da ocupação do território pelo exército popular chinês, o Tibete não tinha um estatuto internacionalmente reconhecido.A difusão das filosofias e religiões orientais no ocidente ajudaram a criar no imaginário ocidental a imagem de uma sociedade, de um povo e um tempo edílico, perfeito e harmonioso. Nada disso existia no Tibete.
Efectivamente, a soberania da China sobre o Tibete a partir de 1949 resultou numa extraordinária melhoria das condições materiais do povo tibetano. Essa melhoria implicou o desmantelamento de uma estrutura tradicional de poder exercido pelos monges organizados em mosteiros, que funcionavam à imagem das estruturas religiosas medievais da alta idade média na Europa. Cerca de 2% da população do Tibete pertencia a essa classe alta e mais 3% eram seus funcionários, encarregados, mordomos, gerentes das propriedades e oficiais dos exércitos privados. A ger-ba, uma minúscula elite de cerca de 200 famílias, governava no topo do sistema. Han Suyin escreveu: “Apenas 626 pessoas possuíam 93% de toda a terra e riqueza e 70% de todos os iaques do Tibete. Entre essas 626 pessoas estavam 333 dirigentes de mosteiros e responsáveis religiosos e 287 autoridades laicas (incluindo nobres do exército tibetano) e seis ministros do governo”.
Curiosamente, hoje a agenda em torno do Tibete faz-se com o recurso a conceitos completamente desconhecidos dos Tibetanos há 50 anos! Democracia, Direitos Humanos, Autodeterminação e Auto-governo conseguem ter eco no Tibete como resultado de 50 anos de secularização e consequente diminuição da influência das elites monásticas, modernização das estruturas socio-económicas e abertura ao ocidente por via da soberania chinesa. Talvez a China tenha já cumprido o seu papel histórico no Tibete. Seja qual for o futuro do Tibete, já não será o arcaico Tibete.
Neste ponto, a questão tibetana é acessória. Espanta-me que os protestos contra a China se tenham reduzido ao estatuto do Tibete. O próprio Dalai Lama não coloca a independência do Tibete em cima da mesa. Aflora o problema na sua dimensão cultural. Exige o respeito pelas tradições religiosas e culturais dos Budistas tibetanos. Essa mesma reivindicação pode ser alargada a muitas outras minorias culturais, religiosas e étnicas em toda a China. Mas espanta-me sobretudo porque a questão de fundo na China é o seu actual modelo de desenvolvimento económico e político. A China, malgrado a sua especificidade cultural, é hoje uma potência económica, que se organiza num modelo de Capitalismo de Estado num sistema político ademocrático. Os trabalhadores chineses não têm direitos sindicais, nem políticos. A economia chinesa não observa quaisquer padrões ambientais, sociais e políticos no seu modelo de desenvolvimento.
Esse modelo funesto, que muito tem aproveitado aos interesses económicos de “respeitadas e consideradas” multinacionais e de muitos Estados Ocidentais é que deveria ser alvo de contestação por parte dos cidadãos europeus. O trabalho feito pelos trabalhadores chineses, sem quaisquer garantias sociais e materiais, não aproveita a esses trabalhadores, nem aos trabalhadores das sociedades socialmente mais justas. Sobre estes recai a constante pressão da concorrência desleal e das deslocalizações de empresas e actividades produtivas.Se se pode ter tempo de antena sobre a China, que se aproveite esse espaço para exigir reformas socais e económicas, não as capitalistas, que mais não visam que uma porta aberta na China para a exploração de mão-de-obra barata, mas as que assegurem uma elevação dos padrões sociais e económicos dos trabalhadores chineses e a conquista de direitos cívicos, políticos e sindicais.Relevante seria que a China se libertasse e logo se libertaria o Tibete!
Actualização

“Vários membros do Comité Olímpico Internacional (COI) estão insatisfeitos com os recentes acontecimentos relacionados com a passagem da tocha por Londres e Paris. Dizem que a imagem do movimento olímpico saiu prejudicada, podendo acabar por decidir a suspensão da estafeta internacional da tocha.”
Independentemente das razões dos manifestantes e das questões relativas à China, o JO são uma manifestação desportiva mundial, não se reduzindo ao país que os acolhe. Se o COI decidir no sentido indicado pela notícia, contribuirá para a redução do espírito olímpico à política no pior que ela tem. Os protestos não são contra os JO. Os protestos são contra a política chinesa no Tibete, facto em si bastante redutor do problema chinês. Com tanto ruído, no fim não ganhará nada o Tibete, perderá o espírito olímpico, perderão os chineses e continuarão a ganhar as multinacionais e os seus estados associados. O endurecimento da política chinesa aproveitará aos mesmos de sempre. O Comité Olímpico Internacional dever-se-ia colocar acima dos protestos, valorizando os JO e os seus objectivos enquanto momento de concórdia, diálogo e paz.

6 comentários:

IDEAL COMUNISTA disse...

Por interposta forma a reclamação dos direitos civis no Tibete é também a reclamação desses direitos na China. Já agora recomendo a leitura de "O século chinês" de Federico Rampini, editorial presença; discurdando de várias interpretações traz relatos muito elucidativos.

O Marquês disse...

Obrigado pela referência. vou tentar encontrar o livro.
A relação que estabelece entre a actual contestação e a dimensão do problema chinês não se me afigura tão linear assim. Aliás, creio mesmo que colocar a questão ao nível do nacionalismo é o que menos faz falta.

joshua disse...

Que se faça e se comece por algum lado. Com retórica podem bem os chineses. Mas concordo contigo quando sublinhas que a condição de libertação do Tibete é indiscutivelmente a libertação integral da própria China.

Mas não te esqueças que antes do colapso da Rússia Soviética, teve de existir uma Polónia precursora,
o que nos autoriza a pensar que se calhar é preciso libertar primeiro o Tibete para que a China, toda ela, se liberte também. Para bem do mundo.

PALAVROSSAVRVS REX

O MARQUÊS DA PRAIA E MONFORTE disse...

Percebo o teu raciocínio. Mas preferia ter as ruas cheias de cidadãos europeus em protesto, não contra a passagem da chama olímpica para a China, mas contra a hipocrisia dos estados ocidentais, que não cessam de firmar acordos comerciais com a China, desastrosos para os seus próprios cidadãos e para o nosso próprio modelo de desenvolvimento económico e cultural. Esses acordos não visam a melhoria das condições de vida, seja dos chineses, seja dos tibetanos, nem mesmo dos europeus. Muita gente ganha dinheiro com a actual situação económica, social e política da China. Grandes marcas de roupa e produtos tecnológicos, cujas montras fazem brilhar as avenidas europeias, exploram directa ou indirectamente essa realidade. Essas multinacionais, cujo poder sobre os estados europeus é imenso, não estão interessadas em nenhumas mudança significativa na China ou noutros países da Ásia, pressionando os governos nesse sentido.
E por cá? Quantas vezes já ouviste dizer que os trabalhadores europeus têm de aceitar baixar os seus padrões sociais e económicos para poderem aguentar os seus empregos face à concorrência chinesa? Mas será isto uma inevitabilidade? Claro que não. È uma finta, uma sacanice.
Neste contexto, porque o tiro está, na minha opinião, a ser dado ao lado, a actual contestação em torno do estatuo do Tibete é uma diversão, que nos afasta do essencial. Uma globalização dirigida para o empobrecimento global a todos os níveis.

Anónimo disse...

O Alberto João Jardi, também reclama independência, sentindo a Madeira oprimida. Sacavém também está subjugada a Loures, e eu vivo na mesma rua de um filho da p_ _ _ A , do qual queria indepedência.

Anónimo disse...

A China não é comunismo, e o tibete tem uma luta justa a independencia, é tipo sacavém a novo concelho, só que o ps so se lembra dessa questão em epoca de eleições.
Carlinhos vitima de abusos nos pupilos do exercito