2008/02/19

LOURES À DERIVA


Várzea de Loures

Estação Elevatória Sacavém

Praça da República, Sacavém, onde a água passou os 2 metros

Praça da República, Sacavém

Santo António dos Cavaleiros

Praça da República, Sacavém

Praça da República, Sacavém

Praça da República, Sacavém

Infantado, Loures

Acesso à A8, Loures

Parque da Cidade, Loures

Infantado, Loures


Ainda tenho os pés enlameados, desta vez as águas entraram-me pelo Palácio dentro. O piso térreo do Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte, sede da Assembleia Municipal de Loures, ficou parcialmente destruído. As suas amplas vidraças não aguentaram a pressão da água e cederam. Da minha janela, para onde virasse o meu olhar só vislumbrava água, lama e destruição.
Simbólico foi ver a maqueta do concelho de Loures, que decora o átrio do edifício, a boiar, balanceada pela corrente da enxurrada.
Loures à deriva, foi o que se pode verificar ontem. Uma imagem terrível!
Domingo à noite na RTP, uma nova série de debates, da autoria de Maria Elisa, dedicava-se ao debate das fragilidades do território nacional no que respeita às cheias, evocando os acontecimentos de 1967 e 1983. Loures, um dos concelhos mais afectados em qualquer um destes acontecimentos, estava representado por António Baldo, como representante da Protecção Civil de Loures, também Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara Municipal e seu cunhado. Da única vez que lhe foi dada a palavra, na sequência de uma referência feita por Pacheco Pereira em relação à fragilidade do Município, mais concretamente sobre a localização do parque de máquinas do Município numa zona sensível, o referido representante, em estilo arrogante, desvalorizava a preocupação e dava uma perspectiva de controlo do problema. Nesse mesmo instante a natureza preparava já o seu contraditório, enquanto falava, abatiam-se sobre Loures fortes aguaceiros. Os sistemas de drenagem começavam entrar em ruptura. As zonas baixas de Bucelas, Frielas, Sacavém, Loures, Camarate, e um pouco por todas as freguesias iniciavam o alagamento.
Esta negação da realidade é o fenómeno mais perigoso, e talvez aquele que mais agrava estas situações. O primeiro passo para a resolução de um problema e a assunção da sua existência e nunca sua negação (ler texto de Pacheco Pereira no Abrupto.

Tal como em Setembro passado, as ocorrências da madrugada de segunda-feira, ficam a dever-se em larga medida à excepcionalidade climatérica que se viveu. Contudo, tal excepcionalidade, cada vez mais frequente, logo menos excepcional, carece de medidas de prevenção cada vez mais eficazes.
Em Setembro, a baixa de Sacavém foi alagada pela ruptura do caneiro da Ribeira do Prior Velho, que a atravessa, a baixa cota do caneiro no seu troço final, associada à acumulação de detritos provenientes de montante estiveram na origem da ocorrência. Se bem que a chuva não se impede, menos verdade não deixa de ser que se impõem medidas no que respeita ao aumento da capacidade dos sistemas de drenagem e nos cuidados permanentes com a limpeza dos leitos das linhas de água. Por outro lado, num sistema tão frágil, qualquer pequena alteração territorial pode desencadear a ruptura. Novas impermeabilizações dos solos, que aumentam a escorrência à superfície e dificultam a infiltração no solo, devem ser automaticamente compensadas com o aumento da capacidade dos sistemas de drenagem. O movimento em relação ao leitos de cheia e das linhas de água deve ser no sentido da sua desocupação progressiva, do seu alargamento, criando zonas de descompressão e bacias retentoras, mesmo que essas estruturas só sejam necessárias quatro vezes num século.
Se em Setembro o Presidente da Câmara Municipal negou a existência do problema, culpando o Ciclo da Água, protagonizando um dos momentos mais patéticos da sua governação, ontem cavalgou no coro de críticas ao Ministro do Ambiente. Bem certo que parte das responsabilidades devem ser endereçadas a esse Ministério, mas tal não deve significar mais uma vez a responsabilidade do Município em relação às suas próprias responsabilidades próprias.
Em Loures continuam-se a licenciar construções em zonas baixas e encostas sem acautelar os efeitos posteriores. Mas pior, continua-se a negar a existência de uma fragilidade estrutural do território, facto que torna os negadores profundamente incapazes de desenvolver as acções necessárias à sua minoração.

A maqueta do concelho de Loures andou ontem à deriva no Parque da Cidade em Loures, do mesmo modo como a actual gestão municipal tem andado no tratamento deste problema.
As fotografias foram retiradas de várias sítios e blogues.

2 comentários:

Eduardo disse...

Continuam a escamotear-se as responsabilidades e os responsáveis. Loures sempre foi alvo preferido da especulação imobiliária. Os Urbanizadores cilindram tudo e com a cumplicidade dos técnicos e responsáveis autarquicos. Constroem, impermeabilizam os solos, em leitos de cheia, entopem as linhas de agua e as áreas de escoamento natural. As denúncias caem em saco roto. As autoridades do Estado fingem que não conhecem os problemas. Os relatórios e as medidas apontadas depois das cheias de 1967 e de 1983 ficaram nas gavetas como os programas do Partido Socialista. Tudo isto porque para os Socialistas é mais importante o negócio das grandes Imobiliárias, e os seus próprios negócios que a defesa das populações. É nestas alturas que se fingem muito preocupados. Contudo continuam a aprovar mais urbanizações, mais cimento permitindo que se entupam as linhas de agua, aumentem os congestionamentos de trânsito e fecham escolas, centros de saúde, quem sabe para, nesses terrenos, autorizarem mais urbanizações como sucede em Moscavide no local da Fábrica de Munições. É fartar vilanagem, diz o povo mas... eles lá estão. Foram para fazer a mudança e o pior é que fizeram mesmo. Estamos a sentir.
Eduardo Baptista

Anónimo disse...

Mas os urbanizadores não são os mecenas do ps? há que satisfaze-los. As populações só servem pra votar neles, nada mais. Mas ainda assim, a população não enxerga essa evidência.
O loures Shooping não está em zona inundável? agora afogem-se.