2007/05/31

O SUOR DOS OPERÁRIOS



“Confesso que este blog tem o seu interesse, só enjoa o carácter intelectual elitista de uma superioridade de esquerda. A esquerda que defende o proletariado não deveria ser mais terra á terra? Os intelectuais de esquerda têm um ar de superioridade intelectual sem sentido, ou não gostam do cheiro a suor dos operários?”


Ontem, foi dia de Greve Geral. Aderi à Greve, subscrevendo a agenda proposta pela CGTP. Fui solidário com os trabalhadores que, tal como eu, aderiram a esta jornada de luta. Mas fui também solidário com todos aqueles que pelas mais variadas razões foram trabalhar, apesar de, tal como eu, não estarem contentes com o rumo da política laboral do Governo.
Esta introdução é o mote para comentar o comentário, passo a redundância, que um operário (!) deixou aqui no blogue. Respondo já à pergunta final que me foi feita. É verdade que não gosto de cheiro a suor, seja o dos operários, seja o de outros quaisquer. O cheiro a suor é sempre uma coisa desagradável, quer para quem o emana, quer para quem o sente. Nada me enjoa mais que o cheiro a suor, no autocarro das 08h00 da manhã. Esta rejeição fará de quem a tem um sobranceiro intelectual? Não creio. Começa a discordância. A imagem descamisada, suja e malcheirosa dos operários constitui um fóssil mental. Existem, ainda hoje, operários que se enquadram nesses condicionalismos, mas a luta dos operários sempre foi pela superação dessa condição.
Ontem, durante a tarde, revi um pouco, do filme rodado em 1926, que foi a primeira adaptação ao cinema do romance a Mãe do Máximo Gorki. Ali é retratada a condição infra-humana na qual viviam os operários que Gorki conheceu no final do Sec. XIX e no início do Sec. XX. A miséria extrema e a violência eram a condição insustentável das massas operárias então. A luta daqueles operários não era a luta pela superação da sua condição de operário, mas sim pela alteração qualitativa do que essa condição significava na sua existência. Foi a luta pela sua dignificação. A luta dos trabalhadores logrou, ao longo do século XX, a alteração radical dessa condição. O desenvolvimento do capitalismo, a evolução tecnológica, a modernização das formas de organização do trabalho, e a luta dos trabalhadores, num processo complexo e interdependente gerou operários com menos odor. Ainda bem.
Outro comentário deriva da dicotomia falaciosa entre operário e intelectual. O intelecto é inerente ao ser humano. A possibilidade de cada ser humano se desenvolver intelectualmente sempre esteve na agenda do movimento operário. Alguns dos intelectuais mais bem preparados que conheço são, ou foram, operários.
Ou seja: um operário não tem de cheirar a suor e deve pensar e poder pensar.

4 comentários:

Anónimo disse...

Porque não poderia um operário poder falar francês e tocar piano?

Anónimo disse...

Penso que aquilo porque muitos lutamos, prende-se sobretudo com a eliminação de obstáculos à realização e utilização plena das capacidades e competências humanas. Independentemente do tipo de trabalho que cada um desenvolve, o ideal é desenvolvê-lo baseado num grande conhecimento do mundo, na rentabilização máxima do seu intelecto. Todos deverão estudar, estudar sempre, toda a vida e usufruir do que o conhecimento, a ciência, ao serviço de todos, fará do mundo.
Gostar de poesia, de um bom livro, de bailado, de música, da gargalhada de uma criança, da estética do que nos rodeia também se aprende e por tal deveria ser uma prioridade de quem nos dirige. Mas eles preferem que os "operários" gostem mais de futebol, do Tony Carreira, da Floribela.
Pensar que há uma cultura elictista, que os intectuais de esquerda defendem com alguma arrogância, e em simultaneo continuar a defender que a populaça gosta de outras coisas é perpetuar a divisão dos homens e subalternizar os trabalhadores. Criar dois mundos distintos: um para os intelectuais, os que estudam e outro para os outros... A bitola tem de se colocar ao alcance de todos e sempre um bocadinho mais alta.

Um abraço
Maria CC

Anónimo disse...

O que é verdadeiramente importante, o rótulo ou o conteúdo?
Há os que sobrevalorizam o rótulo a ponto de nem perceberem que o conteúdo já está fora de prazo e os que não colocam rótulo num produto que merece e tem que ser divulgado. Ambos me deixam de pé atrás.
Não me incomoda grandemente o "ar de superioridade intelectual" de quem quem quer que seja. Valorizo os que clamam por justiça e abrem as suas bocas pelos que necessitam de solidariedade. O resto resumo a visão e a carácter. A visão do autor podemos não partilhar mas é bom conhecê-la, a segunda vamos observando.
É o que vou procurando fazer ao visitar este blog.
Alf

Anónimo disse...

Mas reagiram ao toque! Da superioridade intelectual. O Saramago é quem diz do cimo do seu Nobel, que a esquerda actual é estúpida. Estou em sintonia com um Nobel então, mesmo que arrogante intelectualmente.